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Todo o Conhecimento do Mundo
A internet promete ser o último capítulo de uma epopéia
da humanidade — a construção da biblioteca universal Daniel Tremel
No
final do ano passado, o site Google, dono da ferramenta de busca mais
eficiente da web, anunciou mais uma empreitada: em convênio com cinco
grandes bibliotecas do mundo, ele pretendem digitalizar e colocar na
internet nada menos que 15 milhões de obras.
Ver a internet como uma biblioteca não é uma idéia original.
Praticamente nasceu junto com a rede. O Gutenberg Project (www.gutenberg.org)
oferece 13 mil livros online. A
Amazon.com possui uma
ferramenta de busca que permite vasculhar nos livros e encontrar trechos.
Diversas bibliotecas, como a do Congresso norte-americano, já estão
colocando parte de seu acervo na internet. A iniciativa do Google, porém,
é o passo mais ousado para realizar um sonho milenar: reunir, em apenas um
local, todo o conhecimento humano - ou pelo menos a parte mais
significativa dele.
Antes mesmo de todas essas experiências, em 1995, quando a internet mal
era conhecida do público, o presidente da Oracle, Lawrence Ellison, já
profetizava uma nova biblioteca universal: "Nós chamamos nossa idéia de
Projeto Alexandria", declarou em uma entrevista. "É o renascimento digital
da grande biblioteca de Alexandria."
A Biblioteca Universal
A referência à Biblioteca de Alexandria não é mera ilustração: ela foi o
primeiro projeto de uma biblioteca universal.
No século 3 a.C., quando inaugurou a Biblioteca, Ptolomeu Sóter enviou
uma carta a todos os "governantes e soberanos" do mundo, pedindo que lhe
enviassem todo tipo de obras. Pelos cálculos do rei e de seus
bibliotecários, seriam necessários 500 mil rolos de papiro para reunir todo
o conhecimento produzido pelo homem no mundo.
Valia tudo para conseguir atingir essa meta. Todo navio que chegasse ao
porto de Alexandria era obrigado a entregar quaisquer rolos de papiro que
possuísse à Biblioteca. Uma cópia era feita e o navio partia com a nova
edição, enquanto o original ficava retido. As obras em língua diferente do
grego eram traduzidas. Foi assim que o Antigo Testamento foi traduzido do
hebraico pela primeira vez.
No seu apogeu, a biblioteca contou com cerca de 700 mil rolos de papiro.
A conservação de toda essa riqueza, entretanto, sempre foi problemática, a
começar pelo tipo de material, altamente inflamável. Os incêndios são parte
da história das bibliotecas desse tempo. O mais famoso foi provocado por
Júlio César, em 48 a.C., que fora em defesa de Cleópatra. Cercado no
palácio, ele pôs fogo nos navios do porto e teria queimado cerca de 40 mil
rolos depositados ali.
A versão mais difundida do fim da biblioteca é que ela teria sido
incendiada a mando do califa Omar, quando Alexandria foi conquistada pelos
mulçulmanos, em 640. Ao ser questionado sobre o que fazer com a biblioteca,
o califa foi direto: se os livros estavam de acordo com o Corão, não eram
necessários; se não estivessem, deveriam ser destruídos. O general Amr ibn
al-As mandou que os rolos servissem de combustível para os cerca de 4 mil
banhos públicos de Alexandria. Eles teriam alimentado os fornos durante seis
meses.
Embora pitoresca, a história não parece real. O mais provável é que
a biblioteca tenha sido destruída em grande parte durante a guerra com
Zenóbia, rainha de Palmira, no século 3. O fato é que não restou nenhum
vestígio das obras e nem se sabe onde ela ficava exatamente.
De fato, nenhuma biblioteca da Antiguidade - Pérgamo, Rodes e todas as
bibliotecas públicas de Roma - sobreviveu. A reunião das obras em grande
número ajudava, na verdade, mais a destruição que a preservação, e a maior
parte das que sobreviveram pertenciam a pequenas coleções particulares.
Organização
A invenção da prensa por Gutenberg encerrou a fase copista da humanidade.
Livre para produzir edições sem limites, os livros começaram a se
multiplicar. Um problema inimaginável antes surgiu: como organizar o volume
de informação que ia saindo das gráficas?
Já em 1550, um escritor italiano se queixava de que havia tantos livros
que mal conseguia ler todos os títulos. Os homens letrados reclamavam da
confusão que a "enxurrada" de novas edições estava trazendo.
Até a Idade Média, era raro uma biblioteca elaborar um catálogo das obras
que possuía. A cópia era o trabalho principal e gastar tempo e papel fazendo
listas não era lógico. Os poucos catálogos eram abreviados e relacionavam os
volumes existentes, e não obras e autores. A Universidade de Sorbonne
elaborou seu primeiro catálogo de obras em 1290, quando ultrapassou o marco
de pouco mais de mil livros.
As soluções variavam de local para local. Na mesma Sorbonne,
experimentou-se usar a ordem alfabética. Em Oxford, os livros foram
ordenados com os números arábicos, ainda pouco usados na Europa. A
Biblioteca do Vaticano usou a divisão medieval entre livros sagrados e
seculares.
Esses sistemas não resistiram conforme as coleções cresciam e foram
surgindo sistemas de classificação. O mais bem-sucedido foi o de Francis
Bacon, que dividiu o conhecimento em três áreas, História, Poesia e
Filosofia. Esse foi o primeiro sistema adotado pela Biblioteca do Congresso
de Washington e serviu de base para a Enciclopédia organizada por Diderot.
A revolução industrial e a mecanização das gráficas foi mais um golpe
nesse mundo conturbado: os livros multiplicaram-se em proporções ainda
maiores.
A solução veio apenas com a invenção do sistema de Classificação Decimal
de Dewey, em 1876. O sistema dividia todo o conhecimento humano em dez
categorias e depois em subcategorias, dividindo cada área várias vezes. A
grande vantagem é que ele classificava não apenas os livros existentes, mas
qualquer um que viesse a existir.
A obsessão de Dewey pela organização e eficiência não se limitou à
organização das bibliotecas. Ele também fundou uma empresa que projetava e
vendia móveis e instrumentos para bibliotecas, pensando na sua praticidade.
Ele organizou também o primeiro curso de biblioteconomia e desde o início
permitiu o acesso às mulheres. Isso não tinha nada a ver com a defesa dos
direitos femininos. Dewey acreditava que a função do bibliotecário era
apenas classificar os livros e não devia se intrometer em discussões
teóricas. Ele preferia mulheres justamente porque elas não tinham acesso ao
estudo.
A Classificação Decimal de Dewey e algumas variantes se espalharam pelo
mundo e hoje estão praticamente em todas as bibliotecas do planeta. A
eficiência absoluta do método virou padrão global. Até que surgiu a
internet.
A internet reinventou o caos, arduamente debatido e combatido por
gerações de homens letrados e bibliotecários. A informação, enfim organizada
nas estantes, se dispersou novamente pelo mundo virtual sem ordem e lógica
aparente. E promete alcançar um volume ainda maior que o do passado.
Nos últimos anos, a atividade mais lucrativa surgida no mundo da internet
foi justamente o desenvolvimento de ferramentas de busca, que auxiliam o
internauta a encontrar o que deseja. O Google saiu na frente e hoje pesquisa
quase 8 bilhões de páginas na rede. Uma pesquisa recente calcula que, mesmo
assim, o site de busca não lê nem 1% de todas as páginas existentes. A nova
biblioteca ainda não encontrou seu bibliotecário.
Para ler • "A Biblioteca Desaparecida - Histórias da Biblioteca de
Alexandria". Luciano Canfora. Cia. das Letras • "A Conturbada História das Bibliotecas", Matthew Battles. Ed.
Planeta • "História Social do Conhecimento", Peter Burke. Jorge Zahar
Editor
Uma nova maneira de ler
O crescimento do volume de informação na Idade Moderna moldou duas
formas de organização das bibliotecas: a indexação e a classificação.
A indexação funciona como um "dicionário especializado", em que os
principais termos de um texto são retirados e se tornam "chaves" para
que ele seja encontrado depois. A classificação divide o saber em
classes e subclasses e cria um catálogo de referência. Os números nas
lombadas dos livros nas bibliotecas são essa divisão.
Os dois sistemas foram adaptados da Filosofia. Descobrir a essência
do mundo sempre foi um problema filosófico, mas foi Aristóteles quem se
preocupou em criar um modelo para formular conceitos. Sua idéia era
simples: qualquer termo poderia ser definido pela atribuição de uma
diferença específica à sua substância. A definição para "ser humano",
assim, seria "animal racional".
No meio virtual esse sistema filosófico já não é preciso. A novidade
é que é possível "ler" não só um texto, mas toda uma biblioteca em um
tempo curtíssimo. É como se o leitor tivesse a capacidade de passar os
olhos por toda a biblioteca para encontrar o que quer. O homem ainda não
consegue ler todos os livros do mundo, mas já inventou uma máquina que
consegue.
Uma breve história das bibliotecas do
passado
669-630 a.C.
BIBLIOTECA DE NÍNIVE
As primeiras bibliotecas surgiram na Mesopotâmia e as obras eram
feitas em argila. A biblioteca de Nínive chegou a possuir 25 mil
placas de argila no reinado de Assurbanipal 2º
300
a.C.
BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA
Fundada por Ptolomeu I, general de Alexandre, o Grande, seu objetivo
era possuir ao menos uma cópia de toda a obra escrita no mundo
241-197 a.C.
PÉRGAMO
Rival de Alexandria, Pérgamo utilizava o couro de cabra como suporte
para a escrita, o que ficou conhecido como "pergaminho"
39 a.C.
PRIMEIRA BIBLIOTECA PÚBLICA ROMANA
Idealizada por Júlio César, foi fundada por Assírio Polião durante o
reinado de Augusto. Possuía obras em grego e latim e já organizava
serviço de empréstimo
Séc. 6 d.C.
VIVARIUM
Logo antes da Idade Média, Cassiodoro, um nobre romano cristão,
construiu um mosteiro em que se dedicou a preservar obras. O
mosteiro se tornou modelo para toda a Idade Média e sua obra, "Institutiones
Divinarum et Saecularium Litterarum", foi uma espécie de guia para
os monges copistas da Idade Média
1444
BIBLIOTECA DE SÃO MARCOS
As bibliotecas públicas ressurgiram no Renascimento. A primeira
biblioteca mantida por um mecenas foi a biblioteca de São Marcos,
construída por Cosimo de Médici, em Florença
1456
Invenção da Prensa
Já conhecida no Oriente, Gutenberg "reinventa" a prensa para o
Ocidente. A primeira obra que imprime é a Bíblia
Artigo selecionado pelo Prof. Dr. Elbio Jorge Caramielo
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São Paulo (SP). Fone: (0 xx 11) 3288 2466
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