O trabalho educativo na terceira idade: uma incursão
teórico-metodológica
Benigno Sobral
Resumo
Este trabalho é produto de algumas reflexões contidas em
nossa dissertação de mestrado e tem como escopo dispor aos educadores,
profissionais e estudiosos do Processo de Ensino e Aprendizagem na Terceira
Idade, Educação Gerontológica e Gerontologia Educacional uma série de
questionamentos e problemas teórico-metodológicos.
Ao longo dos anos, trabalhando na área, tanto com
profissionais, quanto com alunos da Terceira idade, sempre me deparei com
questionamentos sobre que modelos, perspectivas e embasamentos poderíamos
exercer nossas atividades didático-pedagógico-educacionais.
Sabemos que no cotidiano da prática intelectual educativa
gerontológica, dos estudos e das pesquisas precisamos levar em conta, em
maior ou menor grau, alguns componentes do processo docente-educativo: o
método - como se aprende e ensina; o conteúdo - o que se aprende e ensina; o
problema - por que se aprende e ensina; o objetivo - para que se aprende e
ensina.
Os componentes circulam neste trabalho de forma não
nominada e recorrente, iluminados segundo a perspectiva fenomenológica de
feições heideggerianas.
Palavras-chave: idoso, método, geriatria.
Introdução
A nossa incursão
teórico-metodológica-fenomenológica-existencial-gerontológica dimensiona um
aprender e ensinar como uma produção de sentido, de verdade, num vir-a-ser2.
Aprender e ensinar a viver na Terceira idade. Uma pretensão, talvez, mas,
segundo a nossa visão, questão fundamental de todo trabalho educacional
gerontológico. É a destinação, o rumo, o caminho dessa pessoa idosa que
precisam ser redimensionados. Uma alfabetização de cunho existencial.
Palavra-mundo, palavra-chão, como nos diz o Mestre Paulo Freire.
Ser idoso, desvelado/revelado. Esse o coroamento de
qualquer trajetória existencial e, principalmente, se for a pessoa na
terceira idade, conforme tentamos clarear no decorrer deste trabalho em
Educação Gerontológica.
O que mais gostaríamos de frisar é o embate que se trava
no trabalho educacional gerontológico em relação à perspectiva do olhar. De
um lado, o viés metafísico, conceitual, ideacional; de outro, o viés
fenomenológico-existencial, do ser-no-mundo-com-o-outro, um coexistente.
Essa coexistência originária é o fundamento do conhecer do idoso, segundo a
interpretação que fizemos dos nossos interlocutores teórico-metodológicos.
O objetivo deste trabalho é demonstrar que o idoso deve
aprender a cuidar de sua própria existência no mundo, com os outros. Esse
trabalho vem sendo realizado, sistematicamente, na UnATI-UERJ, e vimos
desenvolvendo, ali, um movimento de conscientização dos idosos, para que
eles se vejam/compreendam no mundo em que vivem.
Para que se atinja esse processo de conhecimento sobre o
idoso e dele sobre si mesmo, temos abordado vários temas recorrentes à
terceira idade, como a pré-aposentadoria e aposentadoria, o ambiente e a
pessoa idosa, a estrutura familiar e a velhice, a mulher e o envelhecimento,
o trabalho e o envelhecimento, lazer, o idoso sozinho, participação social,
o abuso e a negligência contra os idosos, a alta, a cura e o cuidado, as
relações intergeracionais, o voluntariado, a atenção domiciliar e o suporte
social. Os nossos temas circulam numa dimensão existencial.
Todos os assuntos são discutidos com e a partir do idoso,
levando-o a questionar-se enquanto ser no mundo, vivo e atuante, pois é a
sua transcendência e o porvir de sua existência que são enfocados. O
problema central é conscientizá-lo dessa existência, utilizando-se do
arcabouço metodológico da Fenomenologia para atingir esse objetivo.
Os resultados que se pretende atingir são a transformação
na maneira de se tratar e de se ver o idoso, passando-se a reconhecê-lo e ao
seu entorno. Como resultado final, pretende-se que esse ator social tenha
visibilidade na sociedade, adquirida e conquistada através do viés
fenomenológico. Este trabalho é produto de uma verdadeira e autêntica
coexistência gerontológica.
A trajetória dos estudos em Educação e terceira idade
circula em dois sentidos que interagem e se bifurcam: o primeiro, que
consiste no treinamento e educação para os profissionais que trabalham e
militam com as pessoas idosas ou em vias de envelhecimento (Educação
Gerontológica) e que tem crescido nos anos recentes; o segundo, a pesquisa e
o desenvolvimento de programas direcionados às pessoas acima dos 60 anos
(Gerontologia Educacional) e que foi subestimado ou até descaracterizado.
Sofreu pelo fato de haver uma visão geral de que educação para pessoas mais
velhas seria um luxo de certas elites e que se beneficiavam aqueles que, de
uma forma ou de outra, já freqüentavam os bancos escolares ao longo dos seus
anos de vida.
Entretanto, a educação dessas pessoas tomou um novo
impulso e significado na última década, o que fica evidente no Brasil pelo
número de UnATIs e espaços assemelhados. O incremento dos idosos como
empreendedores e até provedores de serviços sociais e comunitários é só um
dos aspectos de uma educação gerontológica crítica. E, nesse sentido, ela
também deve examinar a dimensão ética e moral da educação das pessoas da
terceira idade.
Em uma sociedade de conhecimento cada vez mais
socializado e diversificado, a educação se torna imprescindível para a
qualidade de vida das pessoas de mais idade, e nos últimos anos de vida,
tanto quanto a moradia ou sua renda.
A Educação Gerontológica crítica oferece uma compreensão
maior das necessidades e desejos dos idosos no mundo de hoje, onde o
envelhecimento saudável exige novos dispositivos de intervenção.
Esta aproximação à pesquisa e ao desenvolvimento de
educação em terceira idade é sustentada e baseada por uma filosofia de
trabalho educativo de cunho emancipatório. O entendimento de pesquisa como
educação emancipadora explicitamente se identifica como um processo
educacional projetado para liberar as pessoas de atitudes e antigas
suposições que limitam o potencial e não permitem a criação de
possibilidades mais positivas para o crescimento pessoal. O central na
educação emancipatória é a aquisição de conhecimentos para a transformação
pessoal. Um exemplo é o desenvolvimento de projetos que envolvem voluntários
seniors na exploração e superação de problemas de anciãos que vivem
isolados. Tais projetos incluem treinamento, supervisão e acompanhamento
desses voluntários. Estes, por sua vez, experimentavam mal-estares e até
depressões por terem sido vítimas de algumas exclusões, encontrando no
trabalho voluntário um novo papel e novos significados para sua existência.
Ou seja, ao desvelar/revelar o outro, ele também se desvela/revela em um
processo de simultaneidade.
A Educação Gerontológica desoculta um propósito na vida
que se havia perdido. A participação dos idosos em pesquisas coordenadas tem
um grande valor na educação em Terceira idade, sendo uma linha de trabalho
defendida pela chamada critical gerontology.
Acima de tudo, a gerontologia crítica está preocupada com
o problema da emancipação das pessoas mais velhas e com todas as formas de
dominação. Uma perspectiva crítica elucida até que ponto os idosos inseridos
em qualquer contexto podem ser oprimidos pela falta de voz e por não
participar dos processos de tomada de decisão.
O primeiro passo é reconhecer as várias formas de
opressão e discriminação, tais como quando as pessoas se aposentam e perdem
status e autoestima, quando elas envelhecem e se tornam invisíveis e quando
perdem a legitimidade de poder ao tentar tomar decisões, sendo
descaracterizadas.
Assim, uma educação em terceira idade pelo viés da
gerontologia crítica está preocupada em desvelar as forças que promovem a
desigualdade na vida dessas pessoas, identificando e explorando
possibilidades para mudanças e criando condições para que os idosos possam
continuar a desenvolver e prosperar durante as fases finais da vida. A busca
da educação emancipadora é um caminho para fazer acontecer e, dessa maneira,
esse trabalho fornece subsídios para uma reflexão em Educação Gerontológica.
Contextualização do ser idoso
- O problema: a realidade do idoso
Ao mapear um conjunto de recortes, define-se uma
cartografia de escolhas para abordar o que pode ser um enfoque sobre a
realidade da educação e a terceira idade. Esta etapa de reconhecimento da
realidade educacional em terceira idade implicará a elaboração de um tipo de
projeto, que assume várias dimensões.
O processo de educação das pessoas da terceira idade é o
motor deste trabalho, pois permitirá que, num certo recorte, redimensione-o
enquanto um ser-no-mundo-com-os-outros, unindo, dialogicamente, a
singularidade e a pluralidade dos alunos na terceira idade (Huzain, 1985). O
idoso sozinho (Berquó e Cazenagui, 1988, p. 155-181), a solidão e o
isolamento social; a mulher idosa e sua viuvez (Rawlins, 1980) acompanhada
de maior expectativa de vida, acrescentando cargas físicas, psíquicas e
mentais, pois a mulher, com a sua tríplice carga (reprodutora, trabalhadora
e cuidadora), enfrenta uma série de vicissitudes e mal-estares (Centro...,
1984); a educação para a aposentadoria (Batie, 1986), independente de
gêneros (Batie, 1986) apesar da maior complexidade ser nos homens; a
educação para o autocuidado, (Marialcira, 1994), auto-ajuda e ajuda mútua, o
suporte formal e o informal. (Ayéndez , 1994, 360-368). Em
síntese, tudo isso e o que antes já foi explicitado.
O que se pretende da Educação Gerontológica é
desvelar/revelar, a partir da trama de significados do universo simbólico
desses alunos da terceira idade, o que faz, o que necessita, o que deseja;
que imagem tem de si, dos outros e do mundo, além de:
- problematizar o conhecimento e o reconhecimento da sua realidade;
- de um suposto descompromisso com o devir;
- discutir a geografia existencial do cotidiano;
- argumentar sobre a destinação antropológica do ser que envelhece;
- refletir sobre fatos e situações problemáticas do cotidiano;
- perceber a si e a seu grupo de pertinência como potenciais;
- gerar novas interpretações dos fatos conhecidos; e
- refletir sobre o relacionamento com as pessoas
próximas; trabalho obrigatório; valor da vizinhança; tempo liberado e o
cotidiano como cultural e educativo.
Essas questões motivam o desenvolvimento deste trabalho
no sentido de buscar-se uma reflexão mais profunda acerca da própria
existência da pessoa idosa, procurando-se compreendê-lo como ser-no-mundo.
Novas Perspectivas
Dois eixos de preocupações tentam justificar a nossa
incursão neste trabalho. O primeiro diz respeito ao envelhecimento
populacional (Veras e Alves, 1984) e suas presentes e futuras conseqüências
para a sociedade brasileira. (Monteiro e Alves, 1995) O segundo eixo,
que é o nuclear de nosso trabalho, refere-se às táticas e estratégias de
educação que dêem conta, ao menos em parte, da existencialidade das pessoas
da terceira idade (Carre, 1980, 29-30; 1985, 125; 1986, 121). Aqueles acima
de 60 anos vislumbram um sentido de contemporaneidade, enquanto um
ser-no-mundo-com-os-outros, a coexistencialidade.
Apesar dos avanços em relação ao papel das pessoas da
terceira idade na sociedade brasileira, ainda é temerário fazer previsões
otimistas sobre o seu cotidiano de plena cidadania. Parafraseando o mestre
geógrafo e humanista Milton Santos, teríamos o cidadão, o meio/cidadão, o
quase-cidadão e o cidadão nenhum, enfim, um cidadão mutilado.
O trabalho desenvolvido com esse universo de pessoas,
desde 1993, na UnATI, Sant’Anna, 1997, p. 75-102) a chamada universidade
microtemática, (pois o tema central é o envelhecimento humano), da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, nos motiva profissional e
existencialmente. Outro fator de grande preocupação e demandas é o fato de
estarmos, ainda, muito distantes de um arcabouço téorico-prático para
trabalhar com as pessoas da terceira idade e com os educadores em
Gerontologia.
Um compromisso, na qualidade de cidadãos e educadores,
nos motiva socialmente nesta empreitada por uma educação gerontológica.
Esse grupo etário, emergente na sociedade brasileira,
inspira e permite um insight existencial e teórico; uma prévia
compreensão que melhor espelhe o seu cotidiano.
Os incipientes, ou quase inexistentes, estudos
sistemáticos em Educação na terceira idade, uma geropedagogia, segundo
alguns estudiosos e educadores europeus, americanos e canadenses é obstáculo
a um adequado trabalho e compreensão dessas pessoas que freqüentam as UnATIs
ou espaços assemelhados.
Existe toda uma discussão em torno de três correntes
sobre o que seria um trabalho educacional em terceira idade: a primeira está
mais voltada ao trabalho de utilização do tempo livre e sua ocupação pelo
lazer e a família; a segunda, um direcionamento à construção e emergência de
um novo ator social, enquanto cidadãos efetivos; e uma terceira corrente que
prioriza a inserção das pessoas idosas em Institutos Superiores de Educação.
Na vertente da Educação continuada (Bayler, 1994) ainda
persiste o direcionamento à produção, à mais-valia-econômica, no clássico
ciclo de vida: aprendizagem, ocupação de um posto de trabalho e
aposentadoria. Aos alunos da terceira idade impõe-se uma Educação continuada
ou permanente, pelo viés do curso de vida, em direção à produção de
uma mais-valia-existencial, de um vir-a-ser. Essa daria conta da pessoa que
ainda pode se reciclar no seu curso de vida, pois o idoso tem
capacidade de estudar e aperfeiçoar-se, principalmente para a vida, para a
sua existência.
A educação, na dimensão do curso de vida das pessoas da
terceira idade e dos grupos sociais envolvidos, implica demandas de
aprendizagem gerontológica.
Características psicológicas, sociais, econômicas e
culturais do grupo social dos idosos acima de 60 anos, muitas vezes, inibem
o seu desvelamento/revelação, enquanto atores de sua própria história:
sensação de impotência e incapacidade para iluminar o cotidiano; mentalidade
mágica e fatalista; sistema de valores e significados esgarçados,
obstaculizando as ações de transformação.
Trabalho e esforço permeavam o dia-a-dia de muitos deles,
principalmente dos estratos sociais inferiores. Geraram e criaram filhos;
muitos vivenciaram o desemprego e a fome, principalmente as mulheres. Enfim,
acumularam experiências, crenças; conhecimentos de um universo culturalmente
(Espinoza, 1990) indiferente a eles, mas eram ‘produtivos’ aos olhos da
sociedade.
No transcurso da existência, muitas dessas pessoas eram
consideradas incultas, alienadas, apáticas, sem devir.
Diante desse repertório potencial do passado, muitas
vezes carregado de negatividade, a sociedade e os meios de comunicação
desqualificam seu modo de vida. Os sistemas educacionais relacionam
aprendizagem e ensino com escola, infância e juventude. Os programas
educativos oferecidos quase sempre espelham conteúdos tradicionais que não
contemplam o existir dos indivíduos da terceira idade. A maioria descolados
de sua realidade e inoperantes a uma mudança e transformação dos
modos-de-cuidar-de-ser dessas pessoas.
Nesse contexto, insere-se o trabalho da UnATI de resgatar
os valores pessoais da terceira idade; este trabalho recebe o respaldo
teórico que vem sendo produzido e incentivado pela UNESCO desde 1982, ao
firmar o Plano Internacional de Ação de Viena originado na Assembléia
Mundial sobre o Envelhecimento.
Abordagem Fenomenológica como Metodologia para a Educação
Gerontológica
"As pessoas da terceira idade enfrentam perdas com o
passamento de entes queridos para a outra dimensão". (Casal de alunos)
Fundamentos da Fenomenologia
Os pressupostos que consubstanciam o nosso trabalho
educativo em terceira idade têm como fundantes uma episteme de cunho
fenomenológico, que se perfila em um modo de ver; compreender e dizer
como possível caminho rumo um processo de conhecimento em Educação
Gerontológica.
Isto se dá em contraponto à postura, à ótica, ao viés e
ao comportamento metafísico de nossa tradição ocidental de pensar e ser.
Essa será uma constante durante o nosso percurso teórico-metodológico.
Tal propositura objetiva dar visibilidade à postura
epistemológica introduzida pela Fenomenologia. Não é propósito, nem se
pretende negar, a importância do viés metafísico na construção do
conhecimento - esteio e substrato científico e tecnológico ao longo da
história científica, mas tão somente de vislumbrarmos uma outra cosmovisão.
Essa incursão tem como fontes Heidegger, a Fenomenologia
existencial e os seus hermeneutas.
A proposta é trabalhar o real, no caso o aluno da
terceira idade da UnATI-UERJ, não enquanto objeto, representação,
conceito, idéia; mas enquanto fenômeno, que no seu movimento de
realização existencial desvela/revela uma realidade.
Ao discorrer sobre Metodologia da Educação Gerontológica
pretende-se olhar, dizer e compreender a pessoa idosa, não como um ente
construído conceitualmente, mas como um ente que, na sua origem ontológica,
é destinado a aparecer/desaparecer, enquanto uma dimensão de um vir-a-ser.
Em outras palavras, quando se discute o processo de construção do
conhecimento em Educação Gerontológica, seus caminhos e métodos, estamos
procurando o sentido de ser e de verdade. E um contínuo
interrogar: o que são e como são os alunos da terceira idade.
Destarte, o trabalho se desenvolverá com o método
fenomenológico de conhecer, em contraponto ao metafísico, conceitual,
ideacional, indagando sobre o ser das pessoas idosas, sua verdade e modos de
configurá-los.
A Fenomenologia alavanca uma questão da maior
importância, a perspectiva do olhar na busca do conhecimento que, na
Educação Gerontológica, fornece uma cosmovisão sobre o aluno da terceira
idade. É nevrálgica a discussão sobre que perspectiva escolher, pois ela
remete a um tempo e espaço que relativiza aquilo que chamamos verdade. Em
contrapartida, o viés metafísico (conceitual) defende que a verdade é
absoluta, una, estável e, conseqüentemente, os caminhos para se chegar a
essa verdade exige métodos e técnicas controláveis e mensuráveis.
Mas o viés metafísico, pelo fato de ter uma perspectiva
quando busca o conhecimento, também está relativizando a sua verdade.
Há limitações nas duas perspectivas, nos dois olhares, e
a Fenomenologia, por isso mesmo, tem como fundante de sua metodologia esses
limites oriundos dos vieses daqueles que investigam os escaninhos do ser e
da verdade.
Assim, a relatividade da perspectiva implica a
relatividade da verdade. A história das ciências nos mostra que os percursos
epistemológicos em busca da verdade têm sinuosidades metodológicas e
técnicas. De um lado, a doxa, ou seja, a opinião, o
conhecimento popular, o conhecimento assistemático, o senso comum. Do outro
a episteme, ou seja, o conhecimento científico, sistemático,
formal (Critelli, 1996, 12-13).
A Busca do Conhecimento e da Verdade
A história da busca da verdade e do ser vem, por
exemplo, dos tempos de Platão, que defendia a idéia da unicidade, perenidade
e incorruptibilidade, enquanto locus de apresentação da verdade dos
entes. Aristóteles emprestava a primazia do conhecimento à catedral do
intelecto. A Renascença com a sua visão humanista, o homem no centro,
insurgiu-se diante da cosmovisão aristotélica; por fim, a perspectiva
cartesiana com o Cógito, espelhando um território lógico-científico,
enquanto ferramenta privilegiada para a verdade do real, do conhecimento do
universo e do próprio homem. O que se segue é muito ilustrativo desse
sentido de verdade, em contraponto a outros vieses:
Quando Van Gogh pinta o par de sapatos do camponês,
na tela há muito mais que a figura de um par de sapato. Há o trabalho
do camponês, no desgaste dos sapatos, a calma de estarem depositados
após o labor, a vida no campo, suas privações, suas alegrias, sua
expectativa de colheita, sua fadiga todas as tardes após o trabalho, o
cheiro da terra e das folhas. Todos os traços de uma vida estão
calcados sobre o par de sapatos. Não importa se o quadro tenha ou não
sido feito a partir de um modelo real. Importa a Verdade que nele está
revelada e como essa Verdade se manifesta (Gmeiner, 1998, p. 115-116).
A perspectiva do conhecimento pelo viés fenomenológico
instaura-se na capacidade plástica e polissêmica da insegurança, do erro, da
fragilidade e das nuances e performances do existir.
Assim, essa busca frenética pela solidez e descarte das
fragilidades no existir freia o translúcido aparecer dos entes em seu
ser, pois é quase sempre a partir desse imponderável que se pode descortinar
condições de possibilidade às coisas, ao real. O olhar fenomenológico elege
esse esgarçado tecido da existência das coisas como nuclear, na busca do
conhecimento da verdade e do ser dos entes para daí instaurar uma tessitura
cotidiana que contemple a felicidade e o seu devir.
Então, está em julgamento a precisão metodológica do
conceito (metafísica) na dimensão da representação versus uma
metodologia fenomenológica, instituída na angústia (Arduíni, 1989, p.
96-99) na dimensão de uma ontologia humana, ao invés da sua
reificação e sacralização.
Quando se fala em ser e verdade, enquanto
uma questão epistemológica, o pensamento heideggeriano é abissal,
colocando-os na dimensão do existir. A possibilidade do conhecer implica a
possibilidade do existir. Transita de um modo de conceituar-o-mundo para um
modo de ser-no-mundo, habitá-lo, viver nele, sentir a si mesmo e aos outros
num contínuo que é dialógico.
O investigar e analisar fenomenológico não está tão
preocupado com o arsenal de ferramentas e técnicas, mas cuidando de um
multifacetado modo de ver o ser dos entes.
O humano, ontologicamente, destina-se a um vir-a-ser;
aspira e respira numa espiral de sentidos. Por mais que perscrute e viva o
mundo ao seu redor, ele presencia a ausência de uma acolhida e
hospitalidade. É como se não pertencesse, pertencendo, pois é
um-ser-no-mundo-com-o-outro.
À vivência de uma não acolhida pelo mundo,
Heidegger chama de angústia, mas é nela que o homem descortina e
instaura a possibilidade dos caminhos do conhecer: "É preferível a
angústia da dúvida à paz da acomodação", afirma um autor não conhecido.
O pensar metafísico, conceitual, racional e lógico
insinua que fragilidade e dúvida, diga-se de passagem originárias no ser
humano, poderiam ser substituídas pela garantia da segurança e da
estabilidade. Uma espécie de assepsia nos modos de existir pelo diapasão dos
dispositivos do Cógito Descartiano.
Quando o ser perde o sentido de ser, nos diz a
Fenomenologia, o vazio de sentido é uma possibilidade em direção ao
conhecimento.
O olhar fenomenológico não é privativo dos doutos e/ou
especialistas, mas um constituinte do humano. Assim, tem-se, de um lado, uma
fenomenologia na dimensão epistêmica, esquadrinhando um vazio de sentido; e
de outro, o homem comum, vivenciando, experimentando, dialogando,
enfrentando os revezes de sua condição humana na dimensão de um
conhecer/ser.
São dois olhares, dois caminhos que permitem e se
permitem um conhecimento. Assim a pessoa idosa e os profissionais utilizam e
expressam modos de ver, compreender e dizer o mundo e a vida que se
intercambiam.
Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo iluminar a
essência da Educação Gerontológica, tanto para os profissionais, que devem
ter em vista, sempre, essa dimensão epistemológica, quanto para os idosos,
que, ao buscarem o diálogo com a Educação estão, no fundo, procurando
compreender o sentido de sua existência.
A Interrogação Fenomenológico-Existencial em Gerontologia.
O homem, originariamente portador de uma condição
ontológica do pensar, emerge enquanto um ser-no-mundo destinado a ser;
dialogando e tecendo o seu dia-a-dia (numa dimensão ôntica, das relações
concretas), sem uma preocupação racional e metodológica. O pensamento
instaura-se na existência para depois sistematizar-se.
O escopo desses procedimentos teórico-metodológicos em
Educação Gerontológica constrói-se, assim, a partir de eventos
fenomenológicos. Uma leitura do sentido de ser-idoso-no-mundo, de cunho
ontológico, que incursiona nos modos de ser e conhecer. Interrogar e
interrogar-se, perguntar e perguntar-se; inquirir, elocubrar; permitir e
permitir-se.
O nuclear da investigação e análise do idoso pelo ângulo
fenomenológico, como já foi assinalado, não é a ancoragem ao arsenal
técnico-instrumental-operacional, mas o indagar acerca do ser desse idoso e
como ele se vê e vê aos outros. O fundante é a natureza e o modo
de se encaminhar esse inquirir/inquirir-se da pessoa idosa. Contempla um
olhar ontológico/epistêmico mais pertinente às questões do humano. É uma
co-investigação, numa circularidade de lugares de acontecimentos e
clareiras, onde o idoso, enquanto um ser-com-os-outros-no-mundo, em cena,
ilumina, se ilumina e protagoniza sua própria história numa sintaxe
cotidiana. É um modo de conhecer de interrogantes e perguntadores. É uma
pedagogia da pergunta, como diz Paulo Freire:
A existência humana é, porque se fez perguntando, à
raiz da transformação do mundo. Há uma radicalidade na existência, que é
a radicalidade do ato de perguntar" e mais "a pedagogia da resposta é a
pedagogia da adaptação e não da criatividade. Não estimula o risco...
pois negar o risco... é negar a própria existência humana (Freire e
Faundez, 1985, p. 51).
O nodal do método fenomenológico de conhecimento
gerontológico institui-se numa prospecção, que é retroalimentada num
contínuo de re/descobertas empreendidas num percurso ontológico/ôntico, ou
seja, do ser idoso com as relações concretas, do seu entorno. O desejo de
entender e compreender algo, no caso, o idoso, é o originário fundante do
inquirir o que é e como é esse idoso. Substrato do perquirir,
do buscar, do investigar, do pesquisar, esse o que é e como é a
pessoa idosa se resume no compósito ser de algo das nossas preocupações.
Cabe explicitar que esse inquirir é o motor de quaisquer epistemologias.
Em um método de investigação e análise, implica
iluminarmos o que entendemos por o ser de algo. Aqui faz-se necessária um
alerta ontológico/epistemológico dos modos de ser e conhecer alguma coisa.
Toda investigação e inquirição exigem uma prévia hermenêutica, interpretação
daquele ser de algo que buscamos. Necessário dimensionar esse ser a partir
de algumas anterioridades, de prévias compreensões acerca do ser em questão,
a pessoa idosa.
Primeiro, surge a necessidade de entender o que seja
ser idoso; em seguida, o lugar onde esse idoso acontece, se
desoculta e onde se manifesta a sua visibilidade e condições de
acesso diante dos outros; por fim, um prévio entendimento do seu
horizonte de aparecimento e explicitação o alcance de suas
potencialidades de existência.
Essa tríptica dimensão clareia e ilumina o ser idoso,
fornece à pesquisa educacional gerontológica um modus de interrogar
numa cosmovisão teórico-metodológica-fenomenológica.
A leitura do Ser, pelo viés metafísico, construiu, de um
lado, o conhecimento científico, sistematizado, formal, em cima de
categorias lógico-conceituais; e do outro, o conhecimento assistemático,
informal, do senso comum, popular, do cotidiano, não-científico,
não-verdadeiro, como um conhecer desprovido e esgarçado de conteúdos
confiáveis. Assim foram se estabelecendo os estatutos epistêmicos para a
construção de vários saberes. Mas, ressalve-se que, a História do
Conhecimento, através da Etnociência, vem instituindo e resgatando o
conhecimento do senso comum, das práticas e pensares cotidianos,
conferindo-lhes um lugar. Como explicita o Epistemólogo da Educação na
Universidade de Havana, Dr. Jorge Núnez Jover,
Sin embargo, lo cierto es que el desarrollo de las
especialidades, proceso indudable de la evolución del conocimiento y
la práctica científica, conduce con frecuencia a una ignorancia no
desestimable de todo aquello en lo que no se es especialista, perfil
que, por lo demás, es cada vez más estrecho.
E continua
Surge así una paradoja: el desarrollo del
conocimiento puede conducir a grandes zonas de ignorancia y el
especialista puede ser un gran conocedor de casi nada y un ignorante
de casi todo". Prossegue o Prof. Jover, um defensor da linha da
epistemologia social "Especialmente profundo es el abismo que separa
las ciencias sociales y las humanidades de las ciencias naturales,
técnicas y médicas. C.P. Snow (1977) en un trabajo ya clásico,
Las Dos Culturas, denunciaba desde los años 50 la fractura
introducida en la cultura contemporánea en dos territorios distantes:
ciencias a un lado y humanidades a outro. (...) El resultado de esa
escisión es el empobrecimiento que experimentan los campos situados en
uno y otro lado de la brecha. (...)Opino que contra esto, necesitamos
una mirada más humanista, más centrada en el hombre, su felicidad y
sus valores cuando analizamos la ciencia y la tecnología y también un
fundamento más científico y tecnológico cuando de comprender al hombre
y su vida espiritual se trata (Jover, 1998, p. 1-21).
O que se pretende colocar em discussão na pesquisa
educacional gerontológica é o modo como poderemos indagar o idoso, sem
perder a sua polissêmica dimensão. A compreensão e o conhecimento que se tem
do ser do ente depende da perspectiva do olhar; e, principalmente, em se
tratando do multifacetado empreendimento humano. Ciências brandas e
ciências duras precisam de uma interlocução à serviço da felicidade e
do bem-estar humanos.
Ser e aparência são coincidentes no viés fenomenológico;
um Ser que se manifesta não no ente em si mesmo, mas como ele é visto,
olhado, percebido e sentido, enquanto presença no mundo, coexistente. Ou
seja, não se deve aceitar a idéia de um ente idoso preconcebido como
geralmente ocorre hoje.
O homem é um depositário do Ser; foi-lhe dado a guarda, é
um fato; a recusa desse compromisso transforma-o em um não-ser.
Ser é destinação existencial, horizonte, projeção,
vir-a-ser, devir. Sempre com a possibilidade de uma realização até morrer, é
este o seu percurso, mas numa dimensão temporal do seu vivido de intempéries
e felicidades. Para ser, temos de cuidar de ser, pois é uma condição
ontológica.
A Práxis de Educação Gerontológica na UnATI-UERJ
"Porque eu me sentia muito só e na UnATI/UERJ me sinto
dentro de uma família".
"Sempre gostei de estudar e adquirir mais conhecimentos e
na UnATI tive esta oportunidade". (Alunas)
Pré-Condições do Idoso
O aumento do grau de carência social e econômica dos
idosos é inversamente proporcional ao seu reconhecimento. As ofertas da
sociedade de consumo às pessoas acima de 60 anos produz necessidades
falsas (Sirvent, 1984, p. 34-50), criando hábitos que os alienam do seu
cotidiano. As demandas subliminares dos meios de comunicação de massa nem
sempre espelham as necessidades verdadeiras das pessoas idosas,
embotando-as.
Neste sentido, uma ação educativa gerontológica precisa
diferençar as reais necessidades, tanto dos idosos quanto das outras
categorias de idade.
A caracterização e explicitação dessas necessidades, no
sentido existencial, são importantes, não só teoricamente, mas pelas
implicações na aprendizagem de cunho gerontológico. Uma ação educativa
gerontológica e/ou cultural, inferidas a partir de necessidades falsas,
velam e obstaculizam procedimentos que possam acontecer por iniciativas das
pessoas da terceira idade.
O reconhecimento de necessidades e fontes de satisfação
operam por meio dos sistemas que membros de um grupo compartilham e ao mundo
circundante. No dizer de Paulo Freire, uma consciência mágica e ingênua
(Coletânea, 1985, p. 110-115) não desvela/revela o que fazer
cotidiano das pessoas e, segundo o nosso olhar, mais ainda a dos idosos,
inibindo a sua efetiva participação e inserção na sociedade em torno.
Assim, um processo de educação gerontológica atua como
facilitador de desalienação social das pessoas acima de 60 anos. Faz-se
urgente o incentivo às pesquisas e estudos no campo da Aprendizagem e
Educação gerontológica, visando à existencialidade dessas pessoas (Freire,
1970, p. 67-68). É esclarecedor transcrever um trecho de Paulo Freire,
quando fala da concepção ‘bancária’ de educação:
a) o educador é o que educa; os educandos, os que são
educados; b) o educador é o que sabe; os educandos, os que não sabem; c) o
educador é o que pensa; os educandos, os pensados; d) o educador é o que diz
a palavra; os educandos, os que a escutam docilmente; e) o educador é o que
disciplina; os educandos, os disciplinados; f) o educador é o que opta e
prescreve sua opção; os educandos os que seguem a prescrição; g) o educador
é o que atua; os educandos, os que têm a ilusão de que atuam, na atuação do
educador (Freire, 1970, p. 67-68).
Fundamentos da Educação Gerontológica
Para escapar dessa "cultura do silêncio", o universo
educacional gerontológico encontra na Fenomenologia e na Filosofia
existencial, segundo a nossa visão de mundo, um background
teórico-metodológico, pertinente e adequado ao estudo do processo de
ensino-aprendizagem, junto aos alunos da Universidade Aberta da Terceira
Idade da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UnATI-UERJ).
O real e/ou suposto descompromisso com o devir
quase sempre obnubila, ou interdita, a destinação antropológica do Ser
idoso no seu processo de envelhecimento. São interpostas dificuldades às
formas e contatos no que fazer cotidiano: pessoas próximas,
vizinhança, tempo liberado, família. Além da premência na criação de novos
lugares de acontecimento, de construção dos espaços existenciais.
A pessoa idosa, quem é ela? Uma incursão na metodologia
fenomenológica e educação do homem que envelhece, pelo recorte do processo
de conhecimento gerontológico. Articular ritmos do tempo-espaço,
perspectiva, assumir papéis, grupos de referência e de pertinência.
Na proposta de trabalho que estamos desenvolvendo desde
1993, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com alunos acima de 60
anos de idade, parte-se do princípio da não-dicotomia entre conhecimento
formal e conhecimento informal, visto que, segundo a nossa leitura, não são
e nem podem ser excludentes. Há um continuum de graus de conteúdos
que se imbricam e interagem. Podemos dizer que a realidade das pessoas da
terceira idade não é um simples dado, quantificável e mensurado, mas de uma
pessoa situada numa relação concreta, ôntica, centrada em pressupostos
originários, ontológicos, na dimensão de um ser singular/plural e
construindo realidades no vivido-com-o-outro.
Inferir, a partir de uma realidade dada, implica uma
percepção que se tenha dos problemas cotidianos numa interação simbólica e
dialógica.
As UnATIs, Espaços Assemelhados e Organismos Internacionais
O status e o interesse alcançados pelas UnATIs e suas
congêneres no contexto internacional e organizacional, tais como: ILRs
(Institutes for Learning in Retirement), CRIs (Creative Retirement
Institutes), ELIs (Elder Learning Institutes), LLI (Life Long Learning
Institute) U3A`s (Université du Troisième Age) e as Academy for Lifelong
Learners e National Academy for Teaching and Learning about Aging, com sede
na University of North Texas (Clarck, 1997, p. 751-762), exigiram a criação
de instituições, a nível nacional e internacional, objetivando refletir e
espelhar esse movimento, que vai além do resgate e qualificação de um saber,
mas que é, também, de solidariedade entre as pessoas da terceira idade e de
todas as gerações.
Importante observar que as instituições de educação
gerontológica são, na maioria das vezes, pertencentes aos departamentos de
educação continuada ou de adultos. Também, muitas dessas instituições de
ensino recebem pessoas a partir de 50 anos. Apesar de que, nos países
desenvolvidos, são considerados idosos somente a partir dos 65 anos e,
naqueles em vias de desenvolvimento, a partir dos 60 anos, principalmente
por causa dos indicadores sociais perversos.
As UnATIs contemplam um leque de interesses de natureza
transcultural, que remete às pessoas na entrada dos anos e em sua dimensão
sócio-antropológica.
Vislumbra-se uma pessoa idosa, enquanto produtora de
sentido, de verdade, sem aquela mentalidade mágica e fatalista que quase
sempre lhe é atribuída e muitas vezes até sentida.
Assim, surgem associações e redes internacionais como a
AIUTA, Associação Internacional das Universidades Abertas da Terceira
Idade, fundada em 1976, a partir de um colóquio interuniversitário,
celebrado em Toulouse, a European Network "Learning in Later Life",
formada por dezoito países da Europa e tendo como sede o Centro
Universitário de Educação Continuada da Universidade de Ulm na Alemanha, a
Elderhostel Institute Network, que congrega mais de duzentas
universidades assemelhadas ao redor do mundo, principalmente, Estados Unidos
da América, Canadá, Reino Unido, Nova Zelândia, Austrália, Espanha, e a mais
recente GINA, Geneva International Network on Ageing, que é um
consórcio formado por organizações intergovernamentais, não-governamentais e
outras, num total de aproximadamente 43 membros institucionais. Por fim, no
Caribe, tem-se uma instituição gerontológica que é o CITED, Centro
IberoAmericano de La Tercera Edad, sediada em Havana, Cuba e mais: a
I Rede de Universidades Abiertas UNI3. Todos esses organismos
internacionais se empenham na melhoria das condições de vida desse segmento
da população, através de formação, pesquisa e serviços à comunidade.
As UnATIs e congêneres assumem diferentes denominações:
Universidade da Terceira Idade, Universidade Aberta da Terceira Idade,
Universidade de Idosos, Institutos para as Pessoas Aposentadas (denominação
muito comum nos EUA e em outros países da Europa), Universidade
Intergeracional, Universidade do Tempo Livre e do Lazer, Escola Aberta e
outras sinonímias. Todas elas comprometidas e engajadas numa troca
existencial entre os seus membros, na dimensão de um enriquecimento pessoal
e coletivo.
O Professor Pierre Vellas, docente de Direito
Internacional na Universidade de Ciências Sociais de Toulouse, França,
fundou a primeira universidade para pessoas maduras e idosas, no curso do
ano acadêmico de 1971-1972.
As próprias raízes das UnATIs têm como premissas
contribuir para a pesquisa gerontológica, através de programas de educação
continuada, educação em saúde e trabalho comunitário. Assim, instaura e
constrói as bases de atuação e práticas sociais, cimentando as interfaces
dessa globalização do processo de envelhecimento populacional. E, sem perder
de vista as características situacionais de cada formação social e
econômica, ao se empreender a criação de instâncias educativas de natureza
gerontológica.
A AIUTA (Associação Internacional das Universidades
Abertas da Terceira Idade), a ELDERHOSTEL e as de mesmo perfil traçam alguns
eixos de sua ação, tanto na função, quanto na sua forma: o
desenvolvimento pessoal dos seus integrantes em sua multidimensionalidade
enquanto ser humano; a integração com as pessoas e entidades consorciadas em
todo o mundo; estabelecer e manter, cultural e cientificamente, o contato
entre elas; desenvolver ações cooperativas e de interesse comum,
especialmente estabelecendo redes de interesse regional; coordenar entre as
UnATIs e assemelhadas, treinamento, estudos e atividades de pesquisa;
desenvolver informações e intercâmbio de serviços; cooperar com organizações
e dar suporte a instituições de ensino; promover o bem-estar da população
madura e idosa em geral.
A AIUTA é formada por membros associados, membros
honorários e outros, além de ter como instância máxima de decisão a
Assembléia Geral, que ocorre a cada congresso da entidade, de 2 em 2 anos; e
um Conselho de Administração, eleito a cada 4 anos e que se reúne
periodicamente duas vezes por ano.
Os cargos e estruturas são distribuídos entre Presidente,
Vice-presidente, Secretário e Tesoureiro. Além do Comitê Científico,
Comissão de Multi-meios, Comissão Sociocultural e Centro de Documentação e
Referência em Educação Gerontológica. Têm representantes em nível de
Delegados junto à UNESCO, Organização Mundial de Saúde, Conselho da Europa e
Parlamento Europeu. Oferece, também, a revista informativa Contact e
um repertório atualizado de seus membros e atividades, pois forma uma rede
de dezenas de países nos quatro continentes.
Vale mencionar que, enquanto produções de trabalhos
apresentados no XVII Congresso Internacional das Universidades Abertas da
Terceira Idade, acontecido em Jyvaskyla, Finlândia, entre 12 e 14 de agosto
de 1994, foi publicado uma seleta de 35 contribuições sobre vários temas,
tais como o "significado da experiência de aprendizagem gerontológica",
"potencial de futuro das UnATIs", "lazer e educação", "preparação para a
aposentadoria" e algumas dezenas de outros assuntos candentes na área da
Terceira Idade. (Eino et al, 1995)
Uma das características das instituições-membro da AIUTA
é que devem estabelecer suas atividades educacionais em espaços
universitários ou em consórcio com o mundo acadêmico (característico nos
EUA, Europa e Canadá). O que lhes dá e proporciona uma produção de
conhecimento qualificado e a criação de dispositivos de intervenção em
serviços de saúde e bem-estar, em favor das pessoas na terceira idade e de
sua comunidade.
Os alunos desses espaços de aprendizagem gerontológica
são considerados como produtores de conhecimento, pois estão num lugar de
acontecimento, que os acolhe e os potencializa, visto que possuem uma
sabedoria polissêmica de concepção, de situação e de atuação.
São instâncias existenciais importantes para refletir e
diminuir os estados de solidão e principalmente de isolamento social das
pessoas idosas. E, por sua vez, uma oportunidade para implementar
habilidades que lhes permitam considerarem-se ativos e significativos em uma
sociedade que, geralmente, os descarta como sendo anacrônicos, obsoletos e
defasados; sem capacidade de enfrentamento e plasticidade mental, física e
até social, suficientes numa sociedade moderna ou pós-moderna, complexa e
descontínua. Nesses lugares de educação e atividades gerontológicas, as
pessoas interagem e coexistem numa diversidade cultural e em muitas
atividades de lazer, esportes e intelectuais.
Muitos desses espaços de acolhida, como é o caso da
UnATI-UERJ, contemplam serviços preventivos de saúde e bem-estar no sentido
estrito, pois há uma especificidade no atendimento a esse segmento da
população quanto ao seu bem-estar físico, social e mental (Proposta...,1996,
p. 31-34).
Dessa forma, evita-se e/ou retarda-se a incidência de
muitas patologias e mal-estares muitas vezes comuns a esse grupamento
populacional. Na maioria dos casos, esses acometimentos são
crônico-degenerativos e de difícil solução, lenta evolução e longa duração.
Em vista disso, a adoção de um procedimento fenomenológico, em Educação
gerontológica, de viés heideggeriano tem um sentido de ser. Heidegger
ilumina no seu trabalho teórico-metodológico o modo-de-cuidar-do-cuidado do
ser.
Para quem trabalha na área da Gerontologia, e mais
especificamente da Educação Gerontológica, fundamentando a metodologia na
conceituação heideggeriana, tem-se a cosmovisão de que o primordial do
trabalho em terceira idade é o de perscrutar e destinar as nossas práticas
docentes em direção a esse cuidar do cuidado do ser idoso, a sua destinação,
o seu vir-a-ser.
Não é uma alfabetização das letras como na educação de
adultos, mas uma educação de produção de significados, de sentidos; um
meaning making ou meaning of life (Prager, 1997, p. 1-13),
segundo os profissionais de orientação fenomenológica que incursionam em
Educação Gerontológica e Gerontologia Educacional. Essa construção de
sentido implica a sobrevivência do ser humano, no caso a pessoa idosa
(Courtenay e Truluck, 1997, p. 175-195). Esse é um lado do cuidado,
mais no viés da conservação e preservação do ser em direção ao seu devir.
Mas na Gerontologia e na Geriatria, temos uma outra clareza no trato e
cuidado com as pessoas da Terceira idade, naquilo que denominamos de
contrato terapêutico.
Mas, como já comentado anteriormente, o problema mais
candente, nesse segmento da população, são as doenças crônico-degenerativas,
de longa duração e não-curáveis.
Portanto, não é a cura, no sentido estrito, que procura a
Geronto-geriatria para dar conta das doenças e mal-estares dessas pessoas,
mas o cuidado. Assim, vê-se como de extrema importância a educação para a
auto-ajuda, ajuda mútua, o autocuidado. Esse é o fundamento dos
procedimentos em Medicina geriátrica e, principalmente, nos trabalhos
gerontológicos.
Aqui a educação tem um grande papel que é o de motivar
essas pessoas e os profissionais a criarem dispositivos para,
simultaneamente, cuidar das injúrias físicas, psíquicas e mentais e do ser
idoso no seu vir-a-ser.
Assim, projetos de UnATIs, espalhados por todo o mundo,
vão além da simples busca de preenchimento do dito ócio. Mais do que ocupar
o tempo vago dessas pessoas, têm como fundamento dar-lhes condições de
gerir, de cuidar de forma equilibrada, autônoma e produtiva o cotidiano de
suas vidas.
Isto significa reintegrá-los à sociedade, como um ser
coexistente e indispensável à construção de uma memória individual e
coletiva, historicamente situada e concreta, na dimensão de produção dos
valores éticos, políticos, sociais e culturais.
Com efeito, esse processo de resgatar o papel
sócio-político-cultural do idoso à história é um trabalho de inscrição e
escritura, pois a história escreve-se e inscreve a cada dia. Ela é um jogo
de correlações de forças; é comprometimento. Por isso, pensar as questões
acerca da terceira idade é comprometer-se com a construção de um novo olhar,
crítico, de exigência ontológica e com uma prática de liberdade (Damke,
1995, p. 43-44), espelhando-se na bela expressão de Paulo Freire,
desafiadora e transformadora. E isto implica um diálogo horizontal com todos
os segmentos e o compromisso com um saber desvelado/revelado.
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The educative work at Third age: a theoretical-methodological incursion
Abstract
This work, the result of some reflections presented in our
master thesis, aims at putting a series of questions and
theoretical-methodological problems at the disposal of educators,
professionals and people involved with the study of the teaching process and
the apprenticenship at Third Age, Gerontological Education and Educational
Gerontology. Dealing, along the years, with Third Age professionals and
students, I have always been involved with questions, models, perspectives
and supports concerned with our didatic, pedagogical and educational
activities. Some components of the academic-educative process in the
everyday intelectual and educative gerontological practice are to be
regarded: the method - how to learn and teach; the content - what to learn
and teach; the problem - why to learn and teach; the goal - what to learn
and teach for. These components, highlighted from the phenomenological
heideggerian perspective, are implied and recurrently dealt with.
Key-words: geriatrics, methods, aged.