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ATIVIDADES NA TERCEIRA IDADE

Material escolhido pelo Prof. Dr. Elbio Jorge Caramielo

Textos sobre Envelhecimento
ISSN 1517-5928 versão impressa

 
 


Textos Envelhecimento v.3 n.5 Rio de Janeiro  2001

 

 

O trabalho educativo na terceira idade: uma incursão teórico-metodológica

Benigno Sobral

 

Resumo

Este trabalho é produto de algumas reflexões contidas em nossa dissertação de mestrado e tem como escopo dispor aos educadores, profissionais e estudiosos do Processo de Ensino e Aprendizagem na Terceira Idade, Educação Gerontológica e Gerontologia Educacional uma série de questionamentos e problemas teórico-metodológicos.

Ao longo dos anos, trabalhando na área, tanto com profissionais, quanto com alunos da Terceira idade, sempre me deparei com questionamentos sobre que modelos, perspectivas e embasamentos poderíamos exercer nossas atividades didático-pedagógico-educacionais.

Sabemos que no cotidiano da prática intelectual educativa gerontológica, dos estudos e das pesquisas precisamos levar em conta, em maior ou menor grau, alguns componentes do processo docente-educativo: o método - como se aprende e ensina; o conteúdo - o que se aprende e ensina; o problema - por que se aprende e ensina; o objetivo - para que se aprende e ensina.

Os componentes circulam neste trabalho de forma não nominada e recorrente, iluminados segundo a perspectiva fenomenológica de feições heideggerianas.

Palavras-chave: idoso, método, geriatria.

 

Introdução

A nossa incursão teórico-metodológica-fenomenológica-existencial-gerontológica dimensiona um aprender e ensinar como uma produção de sentido, de verdade, num vir-a-ser2. Aprender e ensinar a viver na Terceira idade. Uma pretensão, talvez, mas, segundo a nossa visão, questão fundamental de todo trabalho educacional gerontológico. É a destinação, o rumo, o caminho dessa pessoa idosa que precisam ser redimensionados. Uma alfabetização de cunho existencial. Palavra-mundo, palavra-chão, como nos diz o Mestre Paulo Freire.

Ser idoso, desvelado/revelado. Esse o coroamento de qualquer trajetória existencial e, principalmente, se for a pessoa na terceira idade, conforme tentamos clarear no decorrer deste trabalho em Educação Gerontológica.

O que mais gostaríamos de frisar é o embate que se trava no trabalho educacional gerontológico em relação à perspectiva do olhar. De um lado, o viés metafísico, conceitual, ideacional; de outro, o viés fenomenológico-existencial, do ser-no-mundo-com-o-outro, um coexistente. Essa coexistência originária é o fundamento do conhecer do idoso, segundo a interpretação que fizemos dos nossos interlocutores teórico-metodológicos.

O objetivo deste trabalho é demonstrar que o idoso deve aprender a cuidar de sua própria existência no mundo, com os outros. Esse trabalho vem sendo realizado, sistematicamente, na UnATI-UERJ, e vimos desenvolvendo, ali, um movimento de conscientização dos idosos, para que eles se vejam/compreendam no mundo em que vivem.

Para que se atinja esse processo de conhecimento sobre o idoso e dele sobre si mesmo, temos abordado vários temas recorrentes à terceira idade, como a pré-aposentadoria e aposentadoria, o ambiente e a pessoa idosa, a estrutura familiar e a velhice, a mulher e o envelhecimento, o trabalho e o envelhecimento, lazer, o idoso sozinho, participação social, o abuso e a negligência contra os idosos, a alta, a cura e o cuidado, as relações intergeracionais, o voluntariado, a atenção domiciliar e o suporte social. Os nossos temas circulam numa dimensão existencial.

Todos os assuntos são discutidos com e a partir do idoso, levando-o a questionar-se enquanto ser no mundo, vivo e atuante, pois é a sua transcendência e o porvir de sua existência que são enfocados. O problema central é conscientizá-lo dessa existência, utilizando-se do arcabouço metodológico da Fenomenologia para atingir esse objetivo.

Os resultados que se pretende atingir são a transformação na maneira de se tratar e de se ver o idoso, passando-se a reconhecê-lo e ao seu entorno. Como resultado final, pretende-se que esse ator social tenha visibilidade na sociedade, adquirida e conquistada através do viés fenomenológico. Este trabalho é produto de uma verdadeira e autêntica coexistência gerontológica.

A trajetória dos estudos em Educação e terceira idade circula em dois sentidos que interagem e se bifurcam: o primeiro, que consiste no treinamento e educação para os profissionais que trabalham e militam com as pessoas idosas ou em vias de envelhecimento (Educação Gerontológica) e que tem crescido nos anos recentes; o segundo, a pesquisa e o desenvolvimento de programas direcionados às pessoas acima dos 60 anos (Gerontologia Educacional) e que foi subestimado ou até descaracterizado. Sofreu pelo fato de haver uma visão geral de que educação para pessoas mais velhas seria um luxo de certas elites e que se beneficiavam aqueles que, de uma forma ou de outra, já freqüentavam os bancos escolares ao longo dos seus anos de vida.

Entretanto, a educação dessas pessoas tomou um novo impulso e significado na última década, o que fica evidente no Brasil pelo número de UnATIs e espaços assemelhados. O incremento dos idosos como empreendedores e até provedores de serviços sociais e comunitários é só um dos aspectos de uma educação gerontológica crítica. E, nesse sentido, ela também deve examinar a dimensão ética e moral da educação das pessoas da terceira idade.

Em uma sociedade de conhecimento cada vez mais socializado e diversificado, a educação se torna imprescindível para a qualidade de vida das pessoas de mais idade, e nos últimos anos de vida, tanto quanto a moradia ou sua renda.

A Educação Gerontológica crítica oferece uma compreensão maior das necessidades e desejos dos idosos no mundo de hoje, onde o envelhecimento saudável exige novos dispositivos de intervenção.

Esta aproximação à pesquisa e ao desenvolvimento de educação em terceira idade é sustentada e baseada por uma filosofia de trabalho educativo de cunho emancipatório. O entendimento de pesquisa como educação emancipadora explicitamente se identifica como um processo educacional projetado para liberar as pessoas de atitudes e antigas suposições que limitam o potencial e não permitem a criação de possibilidades mais positivas para o crescimento pessoal. O central na educação emancipatória é a aquisição de conhecimentos para a transformação pessoal. Um exemplo é o desenvolvimento de projetos que envolvem voluntários seniors na exploração e superação de problemas de anciãos que vivem isolados. Tais projetos incluem treinamento, supervisão e acompanhamento desses voluntários. Estes, por sua vez, experimentavam mal-estares e até depressões por terem sido vítimas de algumas exclusões, encontrando no trabalho voluntário um novo papel e novos significados para sua existência. Ou seja, ao desvelar/revelar o outro, ele também se desvela/revela em um processo de simultaneidade.

A Educação Gerontológica desoculta um propósito na vida que se havia perdido. A participação dos idosos em pesquisas coordenadas tem um grande valor na educação em Terceira idade, sendo uma linha de trabalho defendida pela chamada critical gerontology.

Acima de tudo, a gerontologia crítica está preocupada com o problema da emancipação das pessoas mais velhas e com todas as formas de dominação. Uma perspectiva crítica elucida até que ponto os idosos inseridos em qualquer contexto podem ser oprimidos pela falta de voz e por não participar dos processos de tomada de decisão.

O primeiro passo é reconhecer as várias formas de opressão e discriminação, tais como quando as pessoas se aposentam e perdem status e autoestima, quando elas envelhecem e se tornam invisíveis e quando perdem a legitimidade de poder ao tentar tomar decisões, sendo descaracterizadas.

Assim, uma educação em terceira idade pelo viés da gerontologia crítica está preocupada em desvelar as forças que promovem a desigualdade na vida dessas pessoas, identificando e explorando possibilidades para mudanças e criando condições para que os idosos possam continuar a desenvolver e prosperar durante as fases finais da vida. A busca da educação emancipadora é um caminho para fazer acontecer e, dessa maneira, esse trabalho fornece subsídios para uma reflexão em Educação Gerontológica.

Contextualização do ser idoso

O problema: a realidade do idoso

Ao mapear um conjunto de recortes, define-se uma cartografia de escolhas para abordar o que pode ser um enfoque sobre a realidade da educação e a terceira idade. Esta etapa de reconhecimento da realidade educacional em terceira idade implicará a elaboração de um tipo de projeto, que assume várias dimensões.

O processo de educação das pessoas da terceira idade é o motor deste trabalho, pois permitirá que, num certo recorte, redimensione-o enquanto um ser-no-mundo-com-os-outros, unindo, dialogicamente, a singularidade e a pluralidade dos alunos na terceira idade (Huzain, 1985). O idoso sozinho (Berquó e Cazenagui, 1988, p. 155-181), a solidão e o isolamento social; a mulher idosa e sua viuvez (Rawlins, 1980) acompanhada de maior expectativa de vida, acrescentando cargas físicas, psíquicas e mentais, pois a mulher, com a sua tríplice carga (reprodutora, trabalhadora e cuidadora), enfrenta uma série de vicissitudes e mal-estares (Centro..., 1984); a educação para a aposentadoria (Batie, 1986), independente de gêneros (Batie, 1986) apesar da maior complexidade ser nos homens; a educação para o autocuidado, (Marialcira, 1994), auto-ajuda e ajuda mútua, o suporte formal e o informal. (Ayéndez , 1994, 360-368). Em síntese, tudo isso e o que antes já foi explicitado.

O que se pretende da Educação Gerontológica é desvelar/revelar, a partir da trama de significados do universo simbólico desses alunos da terceira idade, o que faz, o que necessita, o que deseja; que imagem tem de si, dos outros e do mundo, além de:

- problematizar o conhecimento e o reconhecimento da sua realidade;

- de um suposto descompromisso com o devir;

- discutir a geografia existencial do cotidiano;

- argumentar sobre a destinação antropológica do ser que envelhece;

- refletir sobre fatos e situações problemáticas do cotidiano;

- perceber a si e a seu grupo de pertinência como potenciais;

- gerar novas interpretações dos fatos conhecidos; e

- refletir sobre o relacionamento com as pessoas próximas; trabalho obrigatório; valor da vizinhança; tempo liberado e o cotidiano como cultural e educativo.

Essas questões motivam o desenvolvimento deste trabalho no sentido de buscar-se uma reflexão mais profunda acerca da própria existência da pessoa idosa, procurando-se compreendê-lo como ser-no-mundo.

Novas Perspectivas

Dois eixos de preocupações tentam justificar a nossa incursão neste trabalho. O primeiro diz respeito ao envelhecimento populacional (Veras e Alves, 1984) e suas presentes e futuras conseqüências para a sociedade brasileira. (Monteiro e Alves, 1995) O segundo eixo, que é o nuclear de nosso trabalho, refere-se às táticas e estratégias de educação que dêem conta, ao menos em parte, da existencialidade das pessoas da terceira idade (Carre, 1980, 29-30; 1985, 125; 1986, 121). Aqueles acima de 60 anos vislumbram um sentido de contemporaneidade, enquanto um ser-no-mundo-com-os-outros, a coexistencialidade.

Apesar dos avanços em relação ao papel das pessoas da terceira idade na sociedade brasileira, ainda é temerário fazer previsões otimistas sobre o seu cotidiano de plena cidadania. Parafraseando o mestre geógrafo e humanista Milton Santos, teríamos o cidadão, o meio/cidadão, o quase-cidadão e o cidadão nenhum, enfim, um cidadão mutilado.

O trabalho desenvolvido com esse universo de pessoas, desde 1993, na UnATI, Sant’Anna, 1997, p. 75-102) a chamada universidade microtemática, (pois o tema central é o envelhecimento humano), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, nos motiva profissional e existencialmente. Outro fator de grande preocupação e demandas é o fato de estarmos, ainda, muito distantes de um arcabouço téorico-prático para trabalhar com as pessoas da terceira idade e com os educadores em Gerontologia.

Um compromisso, na qualidade de cidadãos e educadores, nos motiva socialmente nesta empreitada por uma educação gerontológica.

Esse grupo etário, emergente na sociedade brasileira, inspira e permite um insight existencial e teórico; uma prévia compreensão que melhor espelhe o seu cotidiano.

Os incipientes, ou quase inexistentes, estudos sistemáticos em Educação na terceira idade, uma geropedagogia, segundo alguns estudiosos e educadores europeus, americanos e canadenses é obstáculo a um adequado trabalho e compreensão dessas pessoas que freqüentam as UnATIs ou espaços assemelhados.

Existe toda uma discussão em torno de três correntes sobre o que seria um trabalho educacional em terceira idade: a primeira está mais voltada ao trabalho de utilização do tempo livre e sua ocupação pelo lazer e a família; a segunda, um direcionamento à construção e emergência de um novo ator social, enquanto cidadãos efetivos; e uma terceira corrente que prioriza a inserção das pessoas idosas em Institutos Superiores de Educação.

Na vertente da Educação continuada (Bayler, 1994) ainda persiste o direcionamento à produção, à mais-valia-econômica, no clássico ciclo de vida: aprendizagem, ocupação de um posto de trabalho e aposentadoria. Aos alunos da terceira idade impõe-se uma Educação continuada ou permanente, pelo viés do curso de vida, em direção à produção de uma mais-valia-existencial, de um vir-a-ser. Essa daria conta da pessoa que ainda pode se reciclar no seu curso de vida, pois o idoso tem capacidade de estudar e aperfeiçoar-se, principalmente para a vida, para a sua existência.

A educação, na dimensão do curso de vida das pessoas da terceira idade e dos grupos sociais envolvidos, implica demandas de aprendizagem gerontológica.

Características psicológicas, sociais, econômicas e culturais do grupo social dos idosos acima de 60 anos, muitas vezes, inibem o seu desvelamento/revelação, enquanto atores de sua própria história: sensação de impotência e incapacidade para iluminar o cotidiano; mentalidade mágica e fatalista; sistema de valores e significados esgarçados, obstaculizando as ações de transformação.

Trabalho e esforço permeavam o dia-a-dia de muitos deles, principalmente dos estratos sociais inferiores. Geraram e criaram filhos; muitos vivenciaram o desemprego e a fome, principalmente as mulheres. Enfim, acumularam experiências, crenças; conhecimentos de um universo culturalmente (Espinoza, 1990) indiferente a eles, mas eram ‘produtivos’ aos olhos da sociedade.

No transcurso da existência, muitas dessas pessoas eram consideradas incultas, alienadas, apáticas, sem devir.

Diante desse repertório potencial do passado, muitas vezes carregado de negatividade, a sociedade e os meios de comunicação desqualificam seu modo de vida. Os sistemas educacionais relacionam aprendizagem e ensino com escola, infância e juventude. Os programas educativos oferecidos quase sempre espelham conteúdos tradicionais que não contemplam o existir dos indivíduos da terceira idade. A maioria descolados de sua realidade e inoperantes a uma mudança e transformação dos modos-de-cuidar-de-ser dessas pessoas.

Nesse contexto, insere-se o trabalho da UnATI de resgatar os valores pessoais da terceira idade; este trabalho recebe o respaldo teórico que vem sendo produzido e incentivado pela UNESCO desde 1982, ao firmar o Plano Internacional de Ação de Viena originado na Assembléia Mundial sobre o Envelhecimento.

Abordagem Fenomenológica como Metodologia para a Educação Gerontológica

"As pessoas da terceira idade enfrentam perdas com o passamento de entes queridos para a outra dimensão". (Casal de alunos)

Fundamentos da Fenomenologia

Os pressupostos que consubstanciam o nosso trabalho educativo em terceira idade têm como fundantes uma episteme de cunho fenomenológico, que se perfila em um modo de ver; compreender e dizer como possível caminho rumo um processo de conhecimento em Educação Gerontológica.

Isto se dá em contraponto à postura, à ótica, ao viés e ao comportamento metafísico de nossa tradição ocidental de pensar e ser. Essa será uma constante durante o nosso percurso teórico-metodológico.

Tal propositura objetiva dar visibilidade à postura epistemológica introduzida pela Fenomenologia. Não é propósito, nem se pretende negar, a importância do viés metafísico na construção do conhecimento - esteio e substrato científico e tecnológico ao longo da história científica, mas tão somente de vislumbrarmos uma outra cosmovisão.

Essa incursão tem como fontes Heidegger, a Fenomenologia existencial e os seus hermeneutas.

A proposta é trabalhar o real, no caso o aluno da terceira idade da UnATI-UERJ, não enquanto objeto, representação, conceito, idéia; mas enquanto fenômeno, que no seu movimento de realização existencial desvela/revela uma realidade.

Ao discorrer sobre Metodologia da Educação Gerontológica pretende-se olhar, dizer e compreender a pessoa idosa, não como um ente construído conceitualmente, mas como um ente que, na sua origem ontológica, é destinado a aparecer/desaparecer, enquanto uma dimensão de um vir-a-ser. Em outras palavras, quando se discute o processo de construção do conhecimento em Educação Gerontológica, seus caminhos e métodos, estamos procurando o sentido de ser e de verdade. E um contínuo interrogar: o que são e como são os alunos da terceira idade.

Destarte, o trabalho se desenvolverá com o método fenomenológico de conhecer, em contraponto ao metafísico, conceitual, ideacional, indagando sobre o ser das pessoas idosas, sua verdade e modos de configurá-los.

A Fenomenologia alavanca uma questão da maior importância, a perspectiva do olhar na busca do conhecimento que, na Educação Gerontológica, fornece uma cosmovisão sobre o aluno da terceira idade. É nevrálgica a discussão sobre que perspectiva escolher, pois ela remete a um tempo e espaço que relativiza aquilo que chamamos verdade. Em contrapartida, o viés metafísico (conceitual) defende que a verdade é absoluta, una, estável e, conseqüentemente, os caminhos para se chegar a essa verdade exige métodos e técnicas controláveis e mensuráveis.

Mas o viés metafísico, pelo fato de ter uma perspectiva quando busca o conhecimento, também está relativizando a sua verdade.

Há limitações nas duas perspectivas, nos dois olhares, e a Fenomenologia, por isso mesmo, tem como fundante de sua metodologia esses limites oriundos dos vieses daqueles que investigam os escaninhos do ser e da verdade.

Assim, a relatividade da perspectiva implica a relatividade da verdade. A história das ciências nos mostra que os percursos epistemológicos em busca da verdade têm sinuosidades metodológicas e técnicas. De um lado, a doxa, ou seja, a opinião, o conhecimento popular, o conhecimento assistemático, o senso comum. Do outro a episteme, ou seja, o conhecimento científico, sistemático, formal (Critelli, 1996, 12-13).

A Busca do Conhecimento e da Verdade

A história da busca da verdade e do ser vem, por exemplo, dos tempos de Platão, que defendia a idéia da unicidade, perenidade e incorruptibilidade, enquanto locus de apresentação da verdade dos entes. Aristóteles emprestava a primazia do conhecimento à catedral do intelecto. A Renascença com a sua visão humanista, o homem no centro, insurgiu-se diante da cosmovisão aristotélica; por fim, a perspectiva cartesiana com o Cógito, espelhando um território lógico-científico, enquanto ferramenta privilegiada para a verdade do real, do conhecimento do universo e do próprio homem. O que se segue é muito ilustrativo desse sentido de verdade, em contraponto a outros vieses:

Quando Van Gogh pinta o par de sapatos do camponês, na tela há muito mais que a figura de um par de sapato. Há o trabalho do camponês, no desgaste dos sapatos, a calma de estarem depositados após o labor, a vida no campo, suas privações, suas alegrias, sua expectativa de colheita, sua fadiga todas as tardes após o trabalho, o cheiro da terra e das folhas. Todos os traços de uma vida estão calcados sobre o par de sapatos. Não importa se o quadro tenha ou não sido feito a partir de um modelo real. Importa a Verdade que nele está revelada e como essa Verdade se manifesta (Gmeiner, 1998, p. 115-116).

A perspectiva do conhecimento pelo viés fenomenológico instaura-se na capacidade plástica e polissêmica da insegurança, do erro, da fragilidade e das nuances e performances do existir.

Assim, essa busca frenética pela solidez e descarte das fragilidades no existir freia o translúcido aparecer dos entes em seu ser, pois é quase sempre a partir desse imponderável que se pode descortinar condições de possibilidade às coisas, ao real. O olhar fenomenológico elege esse esgarçado tecido da existência das coisas como nuclear, na busca do conhecimento da verdade e do ser dos entes para daí instaurar uma tessitura cotidiana que contemple a felicidade e o seu devir.

Então, está em julgamento a precisão metodológica do conceito (metafísica) na dimensão da representação versus uma metodologia fenomenológica, instituída na angústia (Arduíni, 1989, p. 96-99) na dimensão de uma ontologia humana, ao invés da sua reificação e sacralização.

Quando se fala em ser e verdade, enquanto uma questão epistemológica, o pensamento heideggeriano é abissal, colocando-os na dimensão do existir. A possibilidade do conhecer implica a possibilidade do existir. Transita de um modo de conceituar-o-mundo para um modo de ser-no-mundo, habitá-lo, viver nele, sentir a si mesmo e aos outros num contínuo que é dialógico.

O investigar e analisar fenomenológico não está tão preocupado com o arsenal de ferramentas e técnicas, mas cuidando de um multifacetado modo de ver o ser dos entes.

O humano, ontologicamente, destina-se a um vir-a-ser; aspira e respira numa espiral de sentidos. Por mais que perscrute e viva o mundo ao seu redor, ele presencia a ausência de uma acolhida e hospitalidade. É como se não pertencesse, pertencendo, pois é um-ser-no-mundo-com-o-outro.

À vivência de uma não acolhida pelo mundo, Heidegger chama de angústia, mas é nela que o homem descortina e instaura a possibilidade dos caminhos do conhecer: "É preferível a angústia da dúvida à paz da acomodação", afirma um autor não conhecido.

O pensar metafísico, conceitual, racional e lógico insinua que fragilidade e dúvida, diga-se de passagem originárias no ser humano, poderiam ser substituídas pela garantia da segurança e da estabilidade. Uma espécie de assepsia nos modos de existir pelo diapasão dos dispositivos do Cógito Descartiano.

Quando o ser perde o sentido de ser, nos diz a Fenomenologia, o vazio de sentido é uma possibilidade em direção ao conhecimento.

O olhar fenomenológico não é privativo dos doutos e/ou especialistas, mas um constituinte do humano. Assim, tem-se, de um lado, uma fenomenologia na dimensão epistêmica, esquadrinhando um vazio de sentido; e de outro, o homem comum, vivenciando, experimentando, dialogando, enfrentando os revezes de sua condição humana na dimensão de um conhecer/ser.

São dois olhares, dois caminhos que permitem e se permitem um conhecimento. Assim a pessoa idosa e os profissionais utilizam e expressam modos de ver, compreender e dizer o mundo e a vida que se intercambiam.

Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo iluminar a essência da Educação Gerontológica, tanto para os profissionais, que devem ter em vista, sempre, essa dimensão epistemológica, quanto para os idosos, que, ao buscarem o diálogo com a Educação estão, no fundo, procurando compreender o sentido de sua existência.

A Interrogação Fenomenológico-Existencial em Gerontologia.

O homem, originariamente portador de uma condição ontológica do pensar, emerge enquanto um ser-no-mundo destinado a ser; dialogando e tecendo o seu dia-a-dia (numa dimensão ôntica, das relações concretas), sem uma preocupação racional e metodológica. O pensamento instaura-se na existência para depois sistematizar-se.

O escopo desses procedimentos teórico-metodológicos em Educação Gerontológica constrói-se, assim, a partir de eventos fenomenológicos. Uma leitura do sentido de ser-idoso-no-mundo, de cunho ontológico, que incursiona nos modos de ser e conhecer. Interrogar e interrogar-se, perguntar e perguntar-se; inquirir, elocubrar; permitir e permitir-se.

O nuclear da investigação e análise do idoso pelo ângulo fenomenológico, como já foi assinalado, não é a ancoragem ao arsenal técnico-instrumental-operacional, mas o indagar acerca do ser desse idoso e como ele se vê e vê aos outros. O fundante é a natureza e o modo de se encaminhar esse inquirir/inquirir-se da pessoa idosa. Contempla um olhar ontológico/epistêmico mais pertinente às questões do humano. É uma co-investigação, numa circularidade de lugares de acontecimentos e clareiras, onde o idoso, enquanto um ser-com-os-outros-no-mundo, em cena, ilumina, se ilumina e protagoniza sua própria história numa sintaxe cotidiana. É um modo de conhecer de interrogantes e perguntadores. É uma pedagogia da pergunta, como diz Paulo Freire:

A existência humana é, porque se fez perguntando, à raiz da transformação do mundo. Há uma radicalidade na existência, que é a radicalidade do ato de perguntar" e mais "a pedagogia da resposta é a pedagogia da adaptação e não da criatividade. Não estimula o risco... pois negar o risco... é negar a própria existência humana (Freire e Faundez, 1985, p. 51).

O nodal do método fenomenológico de conhecimento gerontológico institui-se numa prospecção, que é retroalimentada num contínuo de re/descobertas empreendidas num percurso ontológico/ôntico, ou seja, do ser idoso com as relações concretas, do seu entorno. O desejo de entender e compreender algo, no caso, o idoso, é o originário fundante do inquirir o que é e como é esse idoso. Substrato do perquirir, do buscar, do investigar, do pesquisar, esse o que é e como é a pessoa idosa se resume no compósito ser de algo das nossas preocupações. Cabe explicitar que esse inquirir é o motor de quaisquer epistemologias.

Em um método de investigação e análise, implica iluminarmos o que entendemos por o ser de algo. Aqui faz-se necessária um alerta ontológico/epistemológico dos modos de ser e conhecer alguma coisa. Toda investigação e inquirição exigem uma prévia hermenêutica, interpretação daquele ser de algo que buscamos. Necessário dimensionar esse ser a partir de algumas anterioridades, de prévias compreensões acerca do ser em questão, a pessoa idosa.

Primeiro, surge a necessidade de entender o que seja ser idoso; em seguida, o lugar onde esse idoso acontece, se desoculta e onde se manifesta a sua visibilidade e condições de acesso diante dos outros; por fim, um prévio entendimento do seu horizonte de aparecimento e explicitação o alcance de suas potencialidades de existência.

Essa tríptica dimensão clareia e ilumina o ser idoso, fornece à pesquisa educacional gerontológica um modus de interrogar numa cosmovisão teórico-metodológica-fenomenológica.

A leitura do Ser, pelo viés metafísico, construiu, de um lado, o conhecimento científico, sistematizado, formal, em cima de categorias lógico-conceituais; e do outro, o conhecimento assistemático, informal, do senso comum, popular, do cotidiano, não-científico, não-verdadeiro, como um conhecer desprovido e esgarçado de conteúdos confiáveis. Assim foram se estabelecendo os estatutos epistêmicos para a construção de vários saberes. Mas, ressalve-se que, a História do Conhecimento, através da Etnociência, vem instituindo e resgatando o conhecimento do senso comum, das práticas e pensares cotidianos, conferindo-lhes um lugar. Como explicita o Epistemólogo da Educação na Universidade de Havana, Dr. Jorge Núnez Jover,

Sin embargo, lo cierto es que el desarrollo de las especialidades, proceso indudable de la evolución del conocimiento y la práctica científica, conduce con frecuencia a una ignorancia no desestimable de todo aquello en lo que no se es especialista, perfil que, por lo demás, es cada vez más estrecho.

E continua

Surge así una paradoja: el desarrollo del conocimiento puede conducir a grandes zonas de ignorancia y el especialista puede ser un gran conocedor de casi nada y un ignorante de casi todo". Prossegue o Prof. Jover, um defensor da linha da epistemologia social "Especialmente profundo es el abismo que separa las ciencias sociales y las humanidades de las ciencias naturales, técnicas y médicas. C.P. Snow (1977) en un trabajo ya clásico, Las Dos Culturas, denunciaba desde los años 50 la fractura introducida en la cultura contemporánea en dos territorios distantes: ciencias a un lado y humanidades a outro. (...) El resultado de esa escisión es el empobrecimiento que experimentan los campos situados en uno y otro lado de la brecha. (...)Opino que contra esto, necesitamos una mirada más humanista, más centrada en el hombre, su felicidad y sus valores cuando analizamos la ciencia y la tecnología y también un fundamento más científico y tecnológico cuando de comprender al hombre y su vida espiritual se trata (Jover, 1998, p. 1-21).

O que se pretende colocar em discussão na pesquisa educacional gerontológica é o modo como poderemos indagar o idoso, sem perder a sua polissêmica dimensão. A compreensão e o conhecimento que se tem do ser do ente depende da perspectiva do olhar; e, principalmente, em se tratando do multifacetado empreendimento humano. Ciências brandas e ciências duras precisam de uma interlocução à serviço da felicidade e do bem-estar humanos.

Ser e aparência são coincidentes no viés fenomenológico; um Ser que se manifesta não no ente em si mesmo, mas como ele é visto, olhado, percebido e sentido, enquanto presença no mundo, coexistente. Ou seja, não se deve aceitar a idéia de um ente idoso preconcebido como geralmente ocorre hoje.

O homem é um depositário do Ser; foi-lhe dado a guarda, é um fato; a recusa desse compromisso transforma-o em um não-ser.

Ser é destinação existencial, horizonte, projeção, vir-a-ser, devir. Sempre com a possibilidade de uma realização até morrer, é este o seu percurso, mas numa dimensão temporal do seu vivido de intempéries e felicidades. Para ser, temos de cuidar de ser, pois é uma condição ontológica.

A Práxis de Educação Gerontológica na UnATI-UERJ

"Porque eu me sentia muito só e na UnATI/UERJ me sinto dentro de uma família".

"Sempre gostei de estudar e adquirir mais conhecimentos e na UnATI tive esta oportunidade". (Alunas)

Pré-Condições do Idoso

O aumento do grau de carência social e econômica dos idosos é inversamente proporcional ao seu reconhecimento. As ofertas da sociedade de consumo às pessoas acima de 60 anos produz necessidades falsas (Sirvent, 1984, p. 34-50), criando hábitos que os alienam do seu cotidiano. As demandas subliminares dos meios de comunicação de massa nem sempre espelham as necessidades verdadeiras das pessoas idosas, embotando-as.

Neste sentido, uma ação educativa gerontológica precisa diferençar as reais necessidades, tanto dos idosos quanto das outras categorias de idade.

A caracterização e explicitação dessas necessidades, no sentido existencial, são importantes, não só teoricamente, mas pelas implicações na aprendizagem de cunho gerontológico. Uma ação educativa gerontológica e/ou cultural, inferidas a partir de necessidades falsas, velam e obstaculizam procedimentos que possam acontecer por iniciativas das pessoas da terceira idade.

O reconhecimento de necessidades e fontes de satisfação operam por meio dos sistemas que membros de um grupo compartilham e ao mundo circundante. No dizer de Paulo Freire, uma consciência mágica e ingênua (Coletânea, 1985, p. 110-115) não desvela/revela o que fazer cotidiano das pessoas e, segundo o nosso olhar, mais ainda a dos idosos, inibindo a sua efetiva participação e inserção na sociedade em torno.

Assim, um processo de educação gerontológica atua como facilitador de desalienação social das pessoas acima de 60 anos. Faz-se urgente o incentivo às pesquisas e estudos no campo da Aprendizagem e Educação gerontológica, visando à existencialidade dessas pessoas (Freire, 1970, p. 67-68). É esclarecedor transcrever um trecho de Paulo Freire, quando fala da concepção ‘bancária’ de educação:

a) o educador é o que educa; os educandos, os que são educados; b) o educador é o que sabe; os educandos, os que não sabem; c) o educador é o que pensa; os educandos, os pensados; d) o educador é o que diz a palavra; os educandos, os que a escutam docilmente; e) o educador é o que disciplina; os educandos, os disciplinados; f) o educador é o que opta e prescreve sua opção; os educandos os que seguem a prescrição; g) o educador é o que atua; os educandos, os que têm a ilusão de que atuam, na atuação do educador (Freire, 1970, p. 67-68).

Fundamentos da Educação Gerontológica

Para escapar dessa "cultura do silêncio", o universo educacional gerontológico encontra na Fenomenologia e na Filosofia existencial, segundo a nossa visão de mundo, um background teórico-metodológico, pertinente e adequado ao estudo do processo de ensino-aprendizagem, junto aos alunos da Universidade Aberta da Terceira Idade da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UnATI-UERJ).

O real e/ou suposto descompromisso com o devir quase sempre obnubila, ou interdita, a destinação antropológica do Ser idoso no seu processo de envelhecimento. São interpostas dificuldades às formas e contatos no que fazer cotidiano: pessoas próximas, vizinhança, tempo liberado, família. Além da premência na criação de novos lugares de acontecimento, de construção dos espaços existenciais.

A pessoa idosa, quem é ela? Uma incursão na metodologia fenomenológica e educação do homem que envelhece, pelo recorte do processo de conhecimento gerontológico. Articular ritmos do tempo-espaço, perspectiva, assumir papéis, grupos de referência e de pertinência.

Na proposta de trabalho que estamos desenvolvendo desde 1993, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com alunos acima de 60 anos de idade, parte-se do princípio da não-dicotomia entre conhecimento formal e conhecimento informal, visto que, segundo a nossa leitura, não são e nem podem ser excludentes. Há um continuum de graus de conteúdos que se imbricam e interagem. Podemos dizer que a realidade das pessoas da terceira idade não é um simples dado, quantificável e mensurado, mas de uma pessoa situada numa relação concreta, ôntica, centrada em pressupostos originários, ontológicos, na dimensão de um ser singular/plural e construindo realidades no vivido-com-o-outro.

Inferir, a partir de uma realidade dada, implica uma percepção que se tenha dos problemas cotidianos numa interação simbólica e dialógica.

As UnATIs, Espaços Assemelhados e Organismos Internacionais

O status e o interesse alcançados pelas UnATIs e suas congêneres no contexto internacional e organizacional, tais como: ILRs (Institutes for Learning in Retirement), CRIs (Creative Retirement Institutes), ELIs (Elder Learning Institutes), LLI (Life Long Learning Institute) U3A`s (Université du Troisième Age) e as Academy for Lifelong Learners e National Academy for Teaching and Learning about Aging, com sede na University of North Texas (Clarck, 1997, p. 751-762), exigiram a criação de instituições, a nível nacional e internacional, objetivando refletir e espelhar esse movimento, que vai além do resgate e qualificação de um saber, mas que é, também, de solidariedade entre as pessoas da terceira idade e de todas as gerações.

Importante observar que as instituições de educação gerontológica são, na maioria das vezes, pertencentes aos departamentos de educação continuada ou de adultos. Também, muitas dessas instituições de ensino recebem pessoas a partir de 50 anos. Apesar de que, nos países desenvolvidos, são considerados idosos somente a partir dos 65 anos e, naqueles em vias de desenvolvimento, a partir dos 60 anos, principalmente por causa dos indicadores sociais perversos.

As UnATIs contemplam um leque de interesses de natureza transcultural, que remete às pessoas na entrada dos anos e em sua dimensão sócio-antropológica.

Vislumbra-se uma pessoa idosa, enquanto produtora de sentido, de verdade, sem aquela mentalidade mágica e fatalista que quase sempre lhe é atribuída e muitas vezes até sentida.

Assim, surgem associações e redes internacionais como a AIUTA, Associação Internacional das Universidades Abertas da Terceira Idade, fundada em 1976, a partir de um colóquio interuniversitário, celebrado em Toulouse, a European Network "Learning in Later Life", formada por dezoito países da Europa e tendo como sede o Centro Universitário de Educação Continuada da Universidade de Ulm na Alemanha, a Elderhostel Institute Network, que congrega mais de duzentas universidades assemelhadas ao redor do mundo, principalmente, Estados Unidos da América, Canadá, Reino Unido, Nova Zelândia, Austrália, Espanha, e a mais recente GINA, Geneva International Network on Ageing, que é um consórcio formado por organizações intergovernamentais, não-governamentais e outras, num total de aproximadamente 43 membros institucionais. Por fim, no Caribe, tem-se uma instituição gerontológica que é o CITED, Centro IberoAmericano de La Tercera Edad, sediada em Havana, Cuba e mais: a I Rede de Universidades Abiertas UNI3. Todos esses organismos internacionais se empenham na melhoria das condições de vida desse segmento da população, através de formação, pesquisa e serviços à comunidade.

As UnATIs e congêneres assumem diferentes denominações: Universidade da Terceira Idade, Universidade Aberta da Terceira Idade, Universidade de Idosos, Institutos para as Pessoas Aposentadas (denominação muito comum nos EUA e em outros países da Europa), Universidade Intergeracional, Universidade do Tempo Livre e do Lazer, Escola Aberta e outras sinonímias. Todas elas comprometidas e engajadas numa troca existencial entre os seus membros, na dimensão de um enriquecimento pessoal e coletivo.

O Professor Pierre Vellas, docente de Direito Internacional na Universidade de Ciências Sociais de Toulouse, França, fundou a primeira universidade para pessoas maduras e idosas, no curso do ano acadêmico de 1971-1972.

As próprias raízes das UnATIs têm como premissas contribuir para a pesquisa gerontológica, através de programas de educação continuada, educação em saúde e trabalho comunitário. Assim, instaura e constrói as bases de atuação e práticas sociais, cimentando as interfaces dessa globalização do processo de envelhecimento populacional. E, sem perder de vista as características situacionais de cada formação social e econômica, ao se empreender a criação de instâncias educativas de natureza gerontológica.

A AIUTA (Associação Internacional das Universidades Abertas da Terceira Idade), a ELDERHOSTEL e as de mesmo perfil traçam alguns eixos de sua ação, tanto na função, quanto na sua forma: o desenvolvimento pessoal dos seus integrantes em sua multidimensionalidade enquanto ser humano; a integração com as pessoas e entidades consorciadas em todo o mundo; estabelecer e manter, cultural e cientificamente, o contato entre elas; desenvolver ações cooperativas e de interesse comum, especialmente estabelecendo redes de interesse regional; coordenar entre as UnATIs e assemelhadas, treinamento, estudos e atividades de pesquisa; desenvolver informações e intercâmbio de serviços; cooperar com organizações e dar suporte a instituições de ensino; promover o bem-estar da população madura e idosa em geral.

A AIUTA é formada por membros associados, membros honorários e outros, além de ter como instância máxima de decisão a Assembléia Geral, que ocorre a cada congresso da entidade, de 2 em 2 anos; e um Conselho de Administração, eleito a cada 4 anos e que se reúne periodicamente duas vezes por ano.

Os cargos e estruturas são distribuídos entre Presidente, Vice-presidente, Secretário e Tesoureiro. Além do Comitê Científico, Comissão de Multi-meios, Comissão Sociocultural e Centro de Documentação e Referência em Educação Gerontológica. Têm representantes em nível de Delegados junto à UNESCO, Organização Mundial de Saúde, Conselho da Europa e Parlamento Europeu. Oferece, também, a revista informativa Contact e um repertório atualizado de seus membros e atividades, pois forma uma rede de dezenas de países nos quatro continentes.

Vale mencionar que, enquanto produções de trabalhos apresentados no XVII Congresso Internacional das Universidades Abertas da Terceira Idade, acontecido em Jyvaskyla, Finlândia, entre 12 e 14 de agosto de 1994, foi publicado uma seleta de 35 contribuições sobre vários temas, tais como o "significado da experiência de aprendizagem gerontológica", "potencial de futuro das UnATIs", "lazer e educação", "preparação para a aposentadoria" e algumas dezenas de outros assuntos candentes na área da Terceira Idade. (Eino et al, 1995)

Uma das características das instituições-membro da AIUTA é que devem estabelecer suas atividades educacionais em espaços universitários ou em consórcio com o mundo acadêmico (característico nos EUA, Europa e Canadá). O que lhes dá e proporciona uma produção de conhecimento qualificado e a criação de dispositivos de intervenção em serviços de saúde e bem-estar, em favor das pessoas na terceira idade e de sua comunidade.

Os alunos desses espaços de aprendizagem gerontológica são considerados como produtores de conhecimento, pois estão num lugar de acontecimento, que os acolhe e os potencializa, visto que possuem uma sabedoria polissêmica de concepção, de situação e de atuação.

São instâncias existenciais importantes para refletir e diminuir os estados de solidão e principalmente de isolamento social das pessoas idosas. E, por sua vez, uma oportunidade para implementar habilidades que lhes permitam considerarem-se ativos e significativos em uma sociedade que, geralmente, os descarta como sendo anacrônicos, obsoletos e defasados; sem capacidade de enfrentamento e plasticidade mental, física e até social, suficientes numa sociedade moderna ou pós-moderna, complexa e descontínua. Nesses lugares de educação e atividades gerontológicas, as pessoas interagem e coexistem numa diversidade cultural e em muitas atividades de lazer, esportes e intelectuais.

Muitos desses espaços de acolhida, como é o caso da UnATI-UERJ, contemplam serviços preventivos de saúde e bem-estar no sentido estrito, pois há uma especificidade no atendimento a esse segmento da população quanto ao seu bem-estar físico, social e mental (Proposta...,1996, p. 31-34).

Dessa forma, evita-se e/ou retarda-se a incidência de muitas patologias e mal-estares muitas vezes comuns a esse grupamento populacional. Na maioria dos casos, esses acometimentos são crônico-degenerativos e de difícil solução, lenta evolução e longa duração. Em vista disso, a adoção de um procedimento fenomenológico, em Educação gerontológica, de viés heideggeriano tem um sentido de ser. Heidegger ilumina no seu trabalho teórico-metodológico o modo-de-cuidar-do-cuidado do ser.

Para quem trabalha na área da Gerontologia, e mais especificamente da Educação Gerontológica, fundamentando a metodologia na conceituação heideggeriana, tem-se a cosmovisão de que o primordial do trabalho em terceira idade é o de perscrutar e destinar as nossas práticas docentes em direção a esse cuidar do cuidado do ser idoso, a sua destinação, o seu vir-a-ser.

Não é uma alfabetização das letras como na educação de adultos, mas uma educação de produção de significados, de sentidos; um meaning making ou meaning of life (Prager, 1997, p. 1-13), segundo os profissionais de orientação fenomenológica que incursionam em Educação Gerontológica e Gerontologia Educacional. Essa construção de sentido implica a sobrevivência do ser humano, no caso a pessoa idosa (Courtenay e Truluck, 1997, p. 175-195). Esse é um lado do cuidado, mais no viés da conservação e preservação do ser em direção ao seu devir. Mas na Gerontologia e na Geriatria, temos uma outra clareza no trato e cuidado com as pessoas da Terceira idade, naquilo que denominamos de contrato terapêutico.

Mas, como já comentado anteriormente, o problema mais candente, nesse segmento da população, são as doenças crônico-degenerativas, de longa duração e não-curáveis.

Portanto, não é a cura, no sentido estrito, que procura a Geronto-geriatria para dar conta das doenças e mal-estares dessas pessoas, mas o cuidado. Assim, vê-se como de extrema importância a educação para a auto-ajuda, ajuda mútua, o autocuidado. Esse é o fundamento dos procedimentos em Medicina geriátrica e, principalmente, nos trabalhos gerontológicos.

Aqui a educação tem um grande papel que é o de motivar essas pessoas e os profissionais a criarem dispositivos para, simultaneamente, cuidar das injúrias físicas, psíquicas e mentais e do ser idoso no seu vir-a-ser.

Assim, projetos de UnATIs, espalhados por todo o mundo, vão além da simples busca de preenchimento do dito ócio. Mais do que ocupar o tempo vago dessas pessoas, têm como fundamento dar-lhes condições de gerir, de cuidar de forma equilibrada, autônoma e produtiva o cotidiano de suas vidas.

Isto significa reintegrá-los à sociedade, como um ser coexistente e indispensável à construção de uma memória individual e coletiva, historicamente situada e concreta, na dimensão de produção dos valores éticos, políticos, sociais e culturais.

Com efeito, esse processo de resgatar o papel sócio-político-cultural do idoso à história é um trabalho de inscrição e escritura, pois a história escreve-se e inscreve a cada dia. Ela é um jogo de correlações de forças; é comprometimento. Por isso, pensar as questões acerca da terceira idade é comprometer-se com a construção de um novo olhar, crítico, de exigência ontológica e com uma prática de liberdade (Damke, 1995, p. 43-44), espelhando-se na bela expressão de Paulo Freire, desafiadora e transformadora. E isto implica um diálogo horizontal com todos os segmentos e o compromisso com um saber desvelado/revelado.

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The educative work at Third age: a theoretical-methodological incursion

Abstract

This work, the result of some reflections presented in our master thesis, aims at putting a series of questions and theoretical-methodological problems at the disposal of educators, professionals and people involved with the study of the teaching process and the apprenticenship at Third Age, Gerontological Education and Educational Gerontology. Dealing, along the years, with Third Age professionals and students, I have always been involved with questions, models, perspectives and supports concerned with our didatic, pedagogical and educational activities. Some components of the academic-educative process in the everyday intelectual and educative gerontological practice are to be regarded: the method - how to learn and teach; the content - what to learn and teach; the problem - why to learn and teach; the goal - what to learn and teach for. These components, highlighted from the phenomenological heideggerian perspective, are implied and recurrently dealt with.

Key-words: geriatrics, methods, aged.

 

© 2005  Centro de Referência e Documentação sobre Envelhecimento, da Universidade Aberta da Terceira Idade - UnATI, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
 

 

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